EIS O LENHO DA CRUZ!
Alguns elementos para celebrar a Páscoa da Cruz
Pe. Ms. José Adalberto Salvini,
Pastoral Litúrgica da Diocese de Jaboticabal.
Ao narrar a Paixão de Jesus Cristo os evangelistas nos informam que, atendendo ao pedido da multidão, por mandato expresso de Pôncio Pilatos, o Filho de Deus feito Homem no mistério da encarnação, foi crucificado no madeiro de uma cruz, conforme o costume romano (Cf. Mt 26; Mc 14-15; Lc 22-23; Jo 19). Outros textos da sagrada escritura apontam para este fato como sendo o admirável cumprimento das promessas de Deus Pai, que acalentou nos séculos e fez realizar em nosso tempo misterioso desígnio da redenção de toda a humanidade pecadora, exatamente pelo precioso Sangue vertido no lenho da cruz (Rm 3,24; Ef 1,7 etc).
Nas primitivas comunidades cristãs este fato ganhou relevância e à medida em que historicamente se estruturaram as celebrações da semana santa, surgiu o piedoso costume de “adorar o lenho da cruz”. Atualmente, este rito se realiza anualmente, em cada 6ª-feira da Paixão, costumeiramente às três horas da tarde.
Obviamente, o rito enquanto “parte” está integrado no “todo” da celebração. Para entendê-lo, precisamos nos debruçar sobre suas origens e evolução, bem como adentrar em sua mística teológica. Assim sendo, nesta reflexão nos interessam três coisa: situar a celebração da paixão no contexto de suas origens e evolução até nossos dias, analisar sua atual estrutura na liturgia romana e, por fim, intuir algumas implicações teológicas para a vida cristã.
1. Em busca das origens e evolução da celebração da Paixão do Senhor
Sabemos que desde as primeiras comunidades cristãs o centro de todas as celebrações litúrgicas sempre foi o mistério pascal de Jesus Cristo, cujo núcleo consiste exatamente na paixão, morte e ressurreição do Senhor.
A partir daquele “primeiro dia da semana” em que Jesus Cristo após ter sido crucificado, morto e sepultado ressurgiu dentre os mortos, o “domingo”, ou seja, “dia do Senhor”, adquiriu identidade própria e ocupou em definitivo o lugar do sábado, memorial da páscoa hebraica. Eis que este dia tornou-se para os cristãos, de geração em geração, o “dia semanal” da celebração memorial da páscoa do único Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
A reunião eucarística, chamada de “fração do pão”, de acordo com a tradição da Igreja sempre foi considerada um momento especial da proclamação testemunhal do mistério pascal, atualmente expressa pela aclamação litúrgica: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”.
Com o passar do tempo a celebração do núcleo pascal destacou-se com maior festividade uma vez ao ano. Não demorou a que este único mistério se desdobrasse noutros momentos celebrativos que particularizaram os “vários momentos” da experiência vivenciada por Cristo. Assim, gradativamente se passou a recordar a entrada triunfal de Jesus na cidade Santa de Jerusalém, sua última ceia com os discípulos, sua oração no horto das oliveiras, a traição feita por seu amigo Iscariotes, sua prisão, julgamento e condenação, o caminho percorrido até o calvário, sua morte na cruz, sepultura e descida à mansão dos mortos e, finalmente, sua gloriosa ressurreição dentre os mortos ao terceiro dia.
No recorte desta reflexão tratamos apenas sobre a origem de uma destas celebrações, ou seja, a “celebração da paixão do Senhor” e, mais especificamente, sobre o “rito da adoração da cruz”.
Em Jerusalém, já no primeiro século d.C. surgiu na manhã do sábado santo uma celebração da Palavra na qual, às bases da liturgia judaica, se proclamava o mistério da paixão de Cristo. Consistia em cantos, leituras, meditação e orações solenes. Porém, foi em Roma, um pouco mais tarde, que a celebração passou a se iniciar com a prostração do bispo, seguida de uma oração.
No séc. IV, houve uma mulher, chamada Etéria, que relatou em seu diário a experiência que vivera em uma peregrinação feita a Jerusalém. Dentre outros fatos, ela nos informa que sobre uma mesa coberta com panos de linho o bispo apresentava aos fiéis um estojo de prata dourada onde se guardava o lenho da cruz. Conforme o seu testemunho, tanto os fiéis, quanto os catecúmenos se aproximavam do santo lenho da seguinte maneira: “todos desfilavam um por um lá frente à cruz: inclinavam-se, tocavam primeiro com a fronte, depois com os olhos a cruz e a inscrição, depois beijam a cruz e se retiram, mas ninguém a toca com as mãos” (Etéria 37,3).
Em Roma, onde se conservava fragmentos do santo lenho, também se introduziu uma celebração semelhante à descrita pela peregrina Etéria, não obstante essa celebração tenha se distinguido em vários aspectos daquela realizada em Jerusalém. É de se esperar que naqueles tempos que os costumes estavam plenamente abertos às riquezas de outras culturas, os diversos papas, sobretudo os de origem oriental, influenciaram significativamente a celebração feita em Roma.
A partir dos sécs. VIII e IX, a procissão em direção ao santo lenho passou a ser acompanhada de um cântico, o da antífona “Eis o lenho da Cruz”, sendo acompanhado com o salmo 118. Com o tempo surgiram outras antífonas: “Salvai-nos, ó Cristo” e “Adoramos a vossa cruz”. Mais tarde se acrescentou o hino “Canta a Igreja ao Rei do Mundo” (Pange lingua), com a estrofe “Cruz fiel”.
Em nenhum dos vários ritos conhecidos se encontra o uso de cobrir nem de descobrir a cruz. Este costume só apareceu no séc. XII, com clara influência da dramatização própria desta época. Outros cânticos foram gradativamente acrescentados, tais como o “Trissagio” e os “Impropérios” (Lamentos de Cristo).
Mas, há quem hoje se pergunte se na celebração o “objeto” que se adora é a cruz “sem” ou “com” a “imagem de Jesus Crucificado”. Primeiramente afirmamos que em suas origens o rito não podia comportar uma imagem do Crucificado, pelo simples fato de que o “objeto” apresentado era, por suposto, o “verdadeiro lenho da cruz” e não outro. Obviamente, ao multiplicarem-se as celebrações por toda a parte, a cruz, enquanto “objeto iconográfico” passou a ser um “sinal sensível” daquele “verdadeiro e único lenho”, do qual pendeu a salvação do mundo. Quanto ao acréscimo da imagem do Corpo do Crucificado, não encontrei nenhum registro de qual época precisamente se iniciou este costume; no entanto, pensemos que de acordo com a piedosa devoção dos fiéis tenha sido naturalmente introduzido juntamente com o “uso das imagens”, no mesmo período em que se enfatizou a dramatização do mistério e o velamento da cruz. É certo que atualmente, na tradição romana, o papa utiliza uma cruz com a imagem do Crucificado, que vai sendo aos poucos desvelada, e não apenas um lenho.
Quanto à comunhão sacramental, até o séc. VII este rito não compunha as partes da celebração. Só a partir de então é que apareceu a comunhão do povo, que devia comungar o que havia sido conservado da celebração precedente, ou seja, da celebração vespertina da ceia do Senhor. Porém, nem o papa, nem os bispos comungavam; apenas os fiéis. Nesta época a comunhão se dava sob as duas espécies e a reserva se fazia tanto do pão, quanto do vinho consagrados. Estes costumes mudaram a ponto que no séc. XVIII apenas o papa comungava. Este costume prevaleceu até 1955, quando a reforma do rito introduziu a comunhão também dos fiéis, que perdura até nossos dias. Isto implica dizer que no primeiro dia do tríduo pascal os fiéis participam duas vezes da comunhão sacramental: a primeira vez, do pão e do vinho consagrados na “celebração eucarística” da ceia do Senhor; a segunda vez, durante a “celebração da paixão”, apenas do pão conservado na reserva eucarística. Obviamente, esta segunda celebração não se trata de “outra missa” mas, sim, de uma “celebração da Palavra”.
2. A atual estrutura da celebração da Paixão do Senhor
No atual Missal Romano, promulgado sob a autoridade de Paulo VI, fruto da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, a celebração da paixão do Senhor se estrutura organizada em três partes: 1) a liturgia da Palavra; 2) a adoração da cruz; 3) a comunhão sacramental.
Para o início da celebração o altar deve estar sem toalha e qualquer outro tipo de ornamentação, pois nesta hora, conforme antiquíssima tradição a igreja não celebra o sacramento. Os ministros aproximam-se do altar e fazem-lhe a reverência, podendo escolher entre prostrar-se ou ajoelhar-se. A atitude tanto dos ministros, quanto de toda a assembléia, deve ser de um profunto silêncio orante, que se rompe com uma oração inicial. Nesta prece se recorda a imensa misericórdia divina, que nos santifica pela paixão de Cristo; sua entrega na cruz destruiu a morte, consequência do primeiro pecado que foi transmitido a toda a humanidade. A súplica deste dia tem por finalidade obter a graça da configuração do fiel a Cristo, que, deste modo, torna-se, pela graça, uma nova criatura.
Introduzidos na celebração pelos ritos precedentes, a primeira parte se constitui da liturgia da Palavra. Conforme a proposta ritual, se lê um techo do profeta Isaías, cujo texto é o cântico do Servo Sofredor. Esta perícope proclama que a potência salvífica da ação divina passa pela humilhação de seu Servo. Este aceita o suplicio em favor da salvação do mundo. O Sl 30 é uma preciosa súplica em meio à provação. Com o seu grito de lamento o Justo demonsta sua inabalável confiança e se entrega inteiramente ao poder do único Deus no qual encontra a plena libertação. A epístola aos hebreus demonstra que de Jesus Cristo, desolado e obediênte até a morte e morte de cruz, provém a mediação favorável do único e eterno Sacerdote entre Deus e a humanidade pecadora. A sua obediência fiel aos desígnios do Pai é a causa da sua e de nossa exaltação! Com a narrativa do evangelho da Paixão (Jo 19), somos chamados a rememorar os acontecimentos da paixão não como “fato histórico” transcorrido no tempo, mas já interpretados pelo evangelista João na perspectiva salvífica que sua mensagem comporta. Daí decorre que “do lado dormido de Cristo na cruz” nasceu o admirável Sacramento da Igreja, Povo da nova e eterna Aliança, selada no Sangue de Cristo. Desta Aliança se participa mediante a graça da fé e pela adesão batismal.
Após a homilia se faz a oração universal que contém dez petições: pela santa igreja, pelo papa, por todas as ordens e categorias de fiéis, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não crêem no Cristo, pelos que não crêem em Deus, pelos poderes públicos e por todos os que sofrem provações. Esta oração encerra a primeira parte da celebração.
A segunda parte, entitulada “Adoração da cruz”, basicamente se constitui por dois elementos: apresentação do lenho com a respectiva exortação e a adoação propriamente dita, acompanhada de antífonas, cânticos e hinos.
São previstas, à livre escolha, duas formas de apresentação:
Na primeira forma a cruz é velada e levada ao altar por dois ministros com as velas. Quem preside, de pé diante do altar recebe a cruz e gradativamente vai descobrindo as partes (superior, braço direito e, por fim, a cruz toda), intercalando com o cânto da antífona e a resposta do povo. O canto da antífona não é necessariamente presidencial; ele pode ser entoado pelo bispo ou presbítero, mas se for conveniente, pode também ser entoado pelo diácono ou até mesmo pelo coro. A antífona e sua resposta se repete por três vezes e a cada vez todos se ajoelham e permanecem um momento adorando em silêncio, enquanto o presidente da celebração continua em pé, com a cruz erguida.
Na segunda forma o presidente (bispo ou sacerdote) ou o diácono, com os ministros ou, ainda outro ministro idôneo, dirige-se à porta da igreja, onde toma nas mãos a cruz sem véu, acompanhado pelos ministros com velas acesas, vai em procissão pela nave até o presbitério. O erguimento da cruz e o canto da antífona se faz à porta principal, no meio da nave e à entrada do presbitério.
Terminada a exortação se faz a adoração da cruz, pela qual se exprime a reverência pela genuflexão simples ou outro sinal apropriado, conforme o costume da região, por exemplo, beijando a cruz. Em alguns lugares, seguindo a prescrição indicada para o bispo, que neste momento pode tirar os sapatos, também os fiéis se aproximam da cruz com os pés descalços, em atitude de despojamento.
Durante a adoração cantam-se as antífonas “Adoramos, Senhor, vosso madeiro”, os “Lamentos do Senhor”, ou outros cantos apropriados, tais como: “Fiel madeiro da santa cruz”, “Em Jerusalém, prenderam Jesus”, “Ó cruz gloriosa”, “Bendita e louvada seja a paixão do Redentor”, “Vitória, tú reinarás, ó cruz tu nos salvarás” etc.
A veracidade do sinal exige apenas uma cruz, de modo que mesmo havendo grande número de fiéis não é permitido multiplicar as filas com “várias cruzes”, com o pretexto de “acelerar” a celebração. Tudo deve ser feito com a devida paciência e decoro, servindo-se dos ritos tanto quanto possam ajudar a contemplar o mistério através do qual Cristo salvou o mundo todo.
A terceira parte é a comunhão dos fiéis, feita com o pão da reserva eucarística. Inicia-se com a preparação da mesa e o translado do Santíssimo Sacramento e segue-se com a oração do Pai nosso, a exortação e a comunhão sacramental, a oração depois da comunhão e se conclui com uma oração sobre o povo.
Sobre o altar estende-se a toalha e colocam-se o corporal e o livro. Pelo caminho mais curto, o diácono ou, na falta dele, o próprio presbítero, ou – por que não?! – o ministro extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística, acompanhado por dois ministros com velas acesas trás o Santíssimo Sacramento e coloca-o sobre o altar, estando todos em pé e em silêncio. As velas são colocadas perto do altar ou sobre ele. Segue-se a exortação do presidente e a oração do Pai-nosso, com o seu embolismo próprio e, omitinda a saudação da paz, faz-se o convite à comunhão sacramental. Terminada a comunhão dos fiéis, a âmbula com o Santíssimo Sacramento é transportada por um ministro competente para um lugar preparado fora da igreja, ou, se não for possível, para o próprio tabernáculo.
Após um momento de silêncio e a oração depois da comunhão, a celebração se conclui com a oração sobre o povo. Todos se retiram em silêncio e o altar é novamente desnudado. Assim, o 1º dia do tríduo pascal, que teve início com a celebração da ceia do Senhor, encerra-se ao pôr do sol da 6ª-feira santa.
3. Implicações teológicas para a vivência cristã
A celebração realizada na tarde do 1º dia do tríduo pascal nos faz compreender que Jesus Cristo foi exposto à paixão e se tornou o instrumento de propiciação, por meio de seu próprio sangue. Somos gratuitamente justificados mediante a fé, não por mérito humano, mas tão somente pelo beneplácito da graça divina.
A “salvação do mundo” foi inaugurada no calvário e já garantida pelo sinal do Espírito (Ef 1,14). Porém, esta redenção só se completará no fim dos tempos, ou seja, na parusia (Lc 21,28), com a libertação da morte pela ressurreição dos corpos. Na esperança, “possuímos as primícias do Espírito”, ainda que “gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8,23). Pressurosos, aguardamos a derradeira manifestação da plena libertação. Por isso, a Igreja ainda peregrina neste mundo, proclama o mistério pascal e grita incessantemente: “Maranatá, Vem Senhor!”.
Adorar a cruz é muito mais do que simplesmente aproximar-se de um “objeto” e reverenciá-lo. O objeto cruz nos remete a um mistério maior e é a este que nós adoramos. Não é qualquer cruz, mas sim a cruz de nosso Senhor e Redentor, Jesus Cristo! Pelos sacramentos, em particilar o batismo e a eucaristia, admiravelmente significados na água e no sangue que jorraram do lado aberto de Cristo na Cruz, somos ontologicamente configurados à sorte do Divino Mestre e formamos “um só Corpo” com Ele. Diz o apóstolo: “pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). E ainda: “Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm 2,11-12).
Adorar a cruz significa mergulhar no mistério e configurar-se de tal modo ao Cristo que possamos ser um com ele vivendo a perfeita comunhão. “Como ele fez”, também nós “devemos fazer”. Ele veio ao mundo com a missão de salvá-lo e por isso livremente entregou a sua vida numa cruz. Com ousada fidelidade, amou até o fim!
Infelizmente, ainda hoje vivemos num mundo marcado por tantas cruzes de violência que fazem eco da paixão do Senhor. O grito de tantas pessoas vitimadas pela crueldade dos poderosos deste mundo se faz sentir por toda parte. Diante disso, quem se faz Cirineu? Quem, como Verônica, é capaz de “enxugar” a verdadeira face?
O Cristo e Senhor, o mesmo que foi levantado no lenho da cruz, voltará. Enquando aguardamos sua vinda gloriosa, determinados sigamos os seus passos e sejamos fiéis partícipes de seu mistério. Tomemos em nossos ombros a nossa cruz e entreguemos a nossa vida para que o mundo tenha vida em abundância e conheça a redenção.
Com Cristo somos um! Pelo sinal da santa cruz haveremos de banir todo mal da face da terra e empunharemos a bandeira da vitória sobre o mundo. O perdão dos pecados é nosso alento e consolo. Que a contemplação do augusto mistério da cruz nos faça crescer na fé. E, ainda que na esperança já vibramos de alegria, pois em nós se confirma a plena libertação.
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