ESTE É O VOSSO O CULTO ESPIRITUAL

Uma reflexão a partir de Rm 12,1-2

 

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 

            Sempre me chamou a atenção esta exortação do apóstolo Paulo: “Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, que vos ofereçais em vossos corpos, como hóstia viva, santa, agradável a Deus. Este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com os esquemas deste mundo, mas transformai-vos pela renovação do espírito, para que possais conhecer qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita” (Rm 12,1-2).

            Em outras palavras, para Paulo, qual é o culto que realmente agrada a Deus? É colocarmo-nos por inteiro (entregar-nos em nossos corpos) a serviço do projeto de Deus vivido por Jesus, o Filho de Deus; entrar no caminho de Jesus como discípulos missionários seus, assumindo e assimilando sua postura ética de justiça, de paz, de respeito e solidariedade com os pobres, de empenho por vida digna para todos; converter-se e mergulhar de cabeça no Espírito de Deus e produzir frutos como caridade, alegria, paz, longanimidade, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, moderação (cf. Gl 5,22); colaborar para que o grande sonho de Deus se realize sobre este planeta terra, isto é, que a vida seja de fato soberana.

            O sentido originário da palavra “culto”, como nós a usamos hoje, pode nos orientar a entender melhor o que se quer dizer com “culto espiritual agradável a Deus”. A palavra “culto” vem do latim (“cultus”). E “cultus” é o particípio passado do verbo latino “cólere”, que significa cultivar. Daí vem a palavra “colono” (a pessoa que cultiva, isto é, que trabalha a terra). Uma “pessoa culta” é uma pessoa que cultiva a ciência, o saber. E “cultuar” Deus (prestar culto a Deus), o que significa? Significa cultivar (viver) no dia a dia, pessoal e comunitariamente, na celebração e na vida, o Espírito de Deus, isto é, aquilo que Deus mesmo é: Amor. Na verdade, como diz Paulo, se em tudo que eu fizer eu não cultivar o amor, eu nada sou (cf. 1Cor 13,1-13).

            A partir da compreensão de “culto espiritual” como compromisso amoroso com os irmãos e irmãs, a exemplo de Jesus, é que o apóstolo dá uma chamada de atenção à comunidade de Corinto (cf. 1Cor 11,1-34). Pois muitos membros da comunidade não iam para as suas reuniões para assimilar (comer e beber) a ceia memorial da Páscoa do Senhor e, assim, cultivar o Amor solidário de Cristo que se entrega totalmente a nós. Eles iam, sim, com outras finalidades, interesseiras e até vergonhosas para um cristão, pois “cada um se adiantava a comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro está bêbado” (v. 26). Em vez de celebrar a Páscoa e se comprometer com ela, iam simplesmente para “massagear” seu próprio egoísmo e “engordar” sua falta de solidariedade. Resultado: Divisões dentro da comunidade, com graves prejuízos para a vida de seus membros (cf. vv. 17-22). Numa palavra, mesmo participando das reuniões cultuais, não se vivia um “culto espiritual”.

            Na história da Igreja (e ainda hoje!), muitas Eucaristias deixaram de ser vividas como momento privilegiado de fortalecimento de uma espiritualidade comprometida com a vida, pela comunhão com a entrega de Cristo (a hóstia viva por excelência, santa, agradável a Deus) para viver aquilo que Paulo chama de “culto espiritual agradável a Deus”. Muitas missas (e outras celebrações também: batismo, matrimônio etc.) foram (e ainda são!) oportunidade antes para justificar e cultivar os “esquemas deste mundo”, egoísmos sob diferentes máscaras. Não transformam, não convertem, não comprometem. “Por isso que há entre vós muitos doentes e débeis e muitos adormecidos”, alerta o apóstolo (1Cor 11,30). Divisões, violências, preconceitos, corrupção, mortes, extermínios, fome, misérias, perpetrados em sociedades ditas cristãs, são um indício de que algo de errado esteve (ou está) acontecendo na forma e no espírito com que se participa da ceia memorial do Senhor.           

Se pelo Batismo fomos chamamos a formar em Cristo um só Corpo (1Cor 12,12-31), a ser família de Deus e templo do Senhor (cf. Ef 2,11-22; 1Cor 3,16-17 e 6,19-20), cumpre-nos enfrentar este desafio: Celebrar bem a divina Liturgia, de tal maneira que realmente nos deixemos transformar por seu espírito e, assim, vivamos a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita. Este é o culto que lhe agrada. E os pobres agradecem.

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

  1. Como melhor podemos honrar a Deus? O que mais lhe agrada?
  2. É importante ir à Igreja, participar das missas e outras celebrações? Por que?
  3. Para quê a gente vai à Igreja, participa das missas e outras celebrações?
  4. O que significa “culto espiritual”?
  5. Quando é que, mesmo indo à Igreja e participando das celebrações, deixamos de honrar a Deus?
  6. As celebrações litúrgicas de sua comunidade possibilitam viver um “culto espiritual”? Por quê? O quê nelas é preciso melhorar?

 

 

 

 

 

 

 

Aprendendo a ser ministro(a) com o apóstolo Paulo

 

Frei Faustino Paludo,OFMCap

 

Estamos iniciando o mês vocacional.  A Igreja nascente conheceu ampla diversidade de ministérios como serviços da edificação do novo povo, reconhecido por Pedro “como raça eleita, sacerdócio régio, nação santa e povo adquirido por Deus” (2Pd 2,9). Paulo nos apresenta um significativo e complexo quadro dos ministérios, com particular destaque à proclamação da Palavra, à evangelização e à profecia (cf 1Ts 5,19-20; 1Cor 4, 1s). As Igrejas fundadas pelo apóstolo eram comunidades “carismáticas” , formadas por pessoas que tinham recebido dons para serem exercidos no serviço (ministérios) do bem comum (1Cor 12,7.11).

Para o apóstolo Paulo a comunidade é o Corpo de Cristo, constituído por muitos membros (1Cor 12, 12s). A partir da imagem do corpo e da responsabilidade de todos os membros na missão, ele menciona uma rica diversidade ministerial: os "apóstolos, profetas, doutores e evangelistas" que anunciam a Boa Nova e organizam as distintas comunidades (1Cor 12,28; Ef 2,20; 3,5; 4,11; 2Tm 4,5). Em cada uma dessas comunidades há o serviço dos “moderadores”, "dirigentes" (Hb 13,7; 13,17;), "os que presidem" (Rm 12,8; 1Tes 5,12), "presbíteros" e “anciões” (1Tm 4, 14; 5,17. 19. 22), "os bispos" (Fl 1,1; 1Tm 3,1-7), "os diáconos" (1Tm 3, 8-13; Fl 1,1) e “supervisores” (Fl 1,1; Tt 1,7). Em outro plano estão os "pastores" e os "mestres” que ensinam" (Ef 4,11).

Todos os que são escolhidos ou exercem uma função, o fazem como servidores. Paulo os chama de servidores (“diaconia”). “Quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servidores, através dos quais vocês foram levados à fé” (1Cor 3,5; cf 1Cor 12,5; 16,15; 2Cor 3,6; 8,4; 9,23; 11, 23; Ef 4,12; 1Tm 1,12; 2Tm 4,5;1Ts 3,2).  Servir com total dedicação e amor era o espírito que devia animar o agir de determinada pessoa em favor do funcionamento harmônico do corpo (cf  1Cor 12,20-21). Seja qual for a atividade que alguém realize, deverá exercê-la como continuidade da atuação de Jesus: “Ele veio para servir e para dar a sua vida em favor de muitos” (Mt 20,28).   

Não sabemos como eram conferidos estes ministério. Eram considerados "dons do Espírito Santo" (1Cor 12,28), ou "dons do Senhor" (Ef 4, 8-11; 1Tm 4,14; 2Tm 1,6). O Espírito enriquece a comunidade – Corpo do qual Cristo é a Cabeça, - confiando diferentes dons e carismas aos membros do corpo (cf 1Cor 12, 27ss).  Ele, na sua livre vontade, escolhe a algumas pessoas para certas funções; os chama e lhes dá dons ou carismas para um ministério específico. Esse dom é uma graça que capacita aquele que recebe determinada função para ser desempenhada em favor do bem comum do Corpo de Cristo. Em Cristo habita a plenitude de todas as graças, dons e ministérios. Ninguém pode ser apóstolo, profeta, evangelista, ou pastor e mestre por sua própria iniciativa.   O chamado e o carisma para certo ministério procedem de Deus (cf 1Cor 14, 1ss). Os dons e ministérios crescem se desenvolvem, se ampliam segundo a vontade de Deus. Por conseqüência, o exercício ministerial requer qualidade de vida. É necessário segundo o ensinamento do apóstolo Paulo perseverar nas virtudes cristãs: da fé, da caridade e do bom testemunho. Uma pessoa pode ter habilidades, mas estas podem ser  desconsideradas para o ministério quando não reúnem os requisitos de uma vida qualificada (cf Ti 1,5-9; 1Tm 3,2-7). A adesão a Jesus Cristo deve ser prévia e total. 

Paulo ressalta a participação da comunidade na organização e na escolha dos ministros. Ela é a depositária dos dons e ministérios.  A pregação do Evangelho e a edificação da comunidade são da responsabilidade de todos os membros do corpo, pois “ se um membro sofre todos sofrem com ele; se um é honrado, todos se alegram com ele” (1Cor 12,7-26). O apóstolo dos gentios sugere que as próprias comunidades elejam seus juízes (1Cor 6,5), seus representantes e tomem suas decisões (cf 1Cor 11,13). Paulo confia à comunidade a tarefa do discernimento dos carismas:  “... examinem tudo e fiquem com o que é bom” (1Ts 5,19-21), tomando sempre o cuidado para que ninguém escravize vocês ...” (Cl 2,8). A própria exclusão pedagógica (terapêutica) de alguém da comunidade, uma decisão importante, é confiada à própria assembléia (1Cor 5,12-13).   

A co-responsabilidade na missão e a participação de todos os cristãos no corpo eclesial se revelam também por meio da presença e da atuação das mulheres nos ministérios da comunidade. Apesar da diferença cultural, a comunidade primitiva aboliu a distinção entre homens e mulheres, “Não há mais diferença... entre homem e mulher” (Gl 3,28). Na comunidade de Corinto as mulheres podem pregar e profetizar (1Cor 11,5). A importância da presença e atuação da mulher é ressaltada pelas inúmeras referências e saudações: a diaconisa Febe (Rm 16,1) ... “Saudações a Maria, que trabalhou muito por vocês” (Rm 16,6); a irmã Ápia (Fm. v. 2);  a Ninfas que acolhia a comunidade em sua casa (Cl 4,15); a Trifosa e Trifena (Rm 16,12; a Priscila (cf Rm 16,3-4; 1Cor 16,19; 2Tm 4,19) e a Evódia e Síntique (Fl 4,2-3).    

Enfim, o apóstolo Paulo tem consciência da atuação do Espírito que distribui dons e carismas entre os fiéis e faz surgir uma multidão de ministérios e serviços, espontâneos ou institucionalizados: “cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para a utilidade de todos. A um dá a palavra de sabedoria, a outro, a palavra de ciência segundo o mesmo Espírito, a outro, o mesmo Espírito da fé; a outro ainda, o único e mesmo Espírito concede o dom das curas; a outro, o poder de fazer milagres; a outro a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, o dom de falar em línguas; a outros ainda, o dom de as interpretar” (1Cor 12,8-10).

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1-      Através de que imagem o apóstolo Paulo expressa sua compreensão da Comunidade e dos ministérios?

2-       Os serviços e ministérios, no entender de Paulo, devem ser expressão de que e em vista do que? 

3- Quem é a fonte dos ministérios e serviços?  Sua realização requer o que das pessoas?

4- À luz da experiência das comunidades de Paulo, como avaliamos a presença e ação  dos ministérios e serviços em nossas comunidades eclesiais?

APRENDENDO A REZAR COM O APÓSTOLO PAULO

 

      Frei Faustino Paludo, OFMCap

 

Os escritos paulinos são uma verdadeira jazida de pedras preciosas no que se refere às orações de ação de graças, louvores e súplicas. A leitura atenta das Cartas de Paulo nos dá a impressão de uma solene celebração das maravilhas realizadas por Deus em Jesus Cristo. “A ele seja dada a glória para sempre. Amém” (Hb 13,21).

 Paulo nos oferece ricas saudações iniciais e finais.  Ele saúda os leitores: “graça e paz a vocês da parte de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo” (1Cor 1,3). Nas iniciais (Rm 1,7; 2Cor 1, 2, etc.), o apóstolo deseja que os fiéis conheçam “a graça e a paz”, na qual já estão mergulhados (cf Rm 5,2) por sua relação com Deus Pai e o Senhor Jesus Cristo.  Nas saudações finais: “Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com vocês” (Rm 16,20; cf Gl 16,18; Ef 6,24, etc.), Paulo retoma a referência à graça de Deus das saudações iniciais e manifesta aos leitores um forte desejo de confiança. Observemos que Paulo inicia duas de suas Cartas com uma invocação ou louvor (bendito) introdutório (2Cor 1,3-4 e Ef 1,3-14). O próprio apóstolo testemunha que a compaixão de Deus foi maravilhosa em sua vida (2Cor 1,8-11).

No coração das pessoas, o louvor e a ação de graças se integram no mesmo movimento . Em face ao agir maravilhoso de Deus e aos benefícios recebidos, elas louvam e agradecem, com manifestações exteriores de júbilo, de alegria e de exultação. O louvor brota da admiração ante à presença e atuação de Deus (cf Ef 1, 3-14). “Juntos recitem salmos, hinos e cânticos, cantando e louvando ao Senhor de todo o coração. Agradeçam sempre a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5,19-20; cf Rm 15,9; 1Cor 14,15s). Paulo louva a ação do Pai que se revelou em Jesus Cristo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: Ele nos abençoou com toda bênção espiritual, no céu, em Cristo” (Ef 1,3ss).  Deus é louvado como Criador (Rm 1,25) e como Pai do Senhor Jesus Cristo (2Cor 11,31), e Cristo é exaltado como Senhor que está acima de tudo. “Deus seja bendito para sempre” (Rm 9,5)!  

Além da forma solene com que são introduzidas as expressões de louvor e de ação de graças, elas se traduzem numa confissão pública das maravilhas de Deus. “... Por isso eu te celebrarei entre as nações pagãs e cantarei hinos ao teu nome” (Rm 15,9-10). “Toda língua confesse que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai” (Fl 2,11).

Além dos louvores, benditos e manifestações de ação de graças, em Paulo encontram-se as doxologias (declarações de louvor a Deus) que aparecem no final das orações e dos hinos: “Ao nosso Deus e Pai seja dada a glória para sempre. Amém!” (Fl 4,20). “A Deus seja dada a glória para sempre. Amém” (Gl 1,5; cf Rm 11,36; 16,27). As comunidades paulinas reconhecem e exaltam pelos séculos sem fim (para sempre, eternamente) a ação de Deus (Gl 1,5; 1Tm 1,17; 2Tm 4,18).  A doxologia paulina, mais do que um desejo, é uma resposta de todo o ser ante à fidelidade de Deus na realização de suas promessas, em particular, do envio de seu Filho Jesus Cristo. “Todas as promessas de Deus encontraram nele o seu sim; por isso, é por meio dele que dizemos: Amém” (2Cor 1,20).  

Em Paulo são inúmeras as referências à “ação de graças”. Muitas delas estão na linha da “eucaristia” (ceia) (cf 1Cor 11,17-34) e outras se referem à gratidão pelos benefícios divinos recebidos. Neste sentido, a ação de graças aparece como resposta à atividade salvadora de Deus da criação à redenção. O apóstolo agradece pelo crescimento na fé, no amor e na esperança dos seus destinatários e colaboradores na missão entre os gentios (cf Rm 1,8;1Cor 1,4; 2Cor, 1,11; Ef 1,16; 1Ts 1,2). Recomenda: “sejam agradecidos” (Cl 3, 15) em todas as circunstâncias (1Ts 5,18) e em todas as atividades.

A ação de graças em Paulo aparece vinculada à oração de súplica: “Apresentem a Deus todas as necessidades de vocês através da oração e da súplica, em ação de graças” (Fl 4,6; cf Cl 4,2). “Recomendo que façam pedidos, orações, súplicas em favor de todos os homens ...  por todos que têm autoridade”  (1Tm 2,1). A intercessão dos cristãos não tem limites.  Frequentemente Paulo pede aos cristãos que orem por ele (Fm 1,22; 2Ts 3,1; Rm 15,30)

A ação de graças integra em si as diferentes dimensões da oração. As comunidades de Paulo têm consciência de se que reúnem em nome de Cristo.  A partir de tudo o que recebem de Jesus Cristo, de uma vez por todas, não podem mais rezar sem prescindir desse dom e suplicar para poder agradecer (cf 2Cor 9,11-15). Interceder, pedir, suplicar em favor de outra pessoa, é uma atitude própria de quem tem o coração animado pela misericórdia de Deus (cf Fl 2,4).  Enfim, as diferentes dimensões da oração paulina, expressam a resposta jubilosa da comunidade à atividade de Deus Criador e Salvador. Ante à ação do Pai que se revelou maravilhosamente em Cristo, nossa resposta não pode ser outra, senão a ação de graças.  “Vocês dêem sempre graças a Deus!” (Ef 5,4).

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1 - O que motiva o apóstolo Paulo louvar e agradecer?

2 - A ação de graças e a súplica em Paulo tinham que motivos?

3 – Vamos fazer uma leitura orante do Hino de Efésios 1,3-14?

 

 

 

DISTRIBUIR A COMUNHÃO

Uma ação relacional humana e divina

 

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 

            Certa ocasião (era um final de domingo), uma irmã minha, participante ativa de sua comunidade de fé e com boa sensibilidade litúrgica, dirigiu-se a mim com estas palavras, bem numa linguagem de quem conhece a vida da roça: “Frei, hoje eu voltei da igreja muito chateada, indignada com o padre que veio celebrar a missa conosco”. “Como assim, mana? O que aconteceu?”, perguntei. E ela: “Pois na hora de distribuir a comunhão, ele parecia com alguém que estava dando milho para as galinhas”.

            Entendi o que ela estava querendo dizer. O padre distribuía a comunhão como quem simplesmente ‘atirava’ a comida nas mãos (ou na boca) dos fiéis, de um jeito tão apressado e meramente funcional que dava a impressão de as pessoas serem tratadas mais ou menos como um bando de galinhas.

            “Isso ainda acontece, também em outros lugares”, respondi à minha irmãzinha. E completei: “Acontece inclusive com ministros e ministras da comunhão eucarística! Mas não é sempre, nem em todo lugar. Também não vamos generalizar”.

            Foi bom eu ter ouvido esse desabafo da minha irmã. Pois acordei para uma reflexão sobre o sentido da ação litúrgica de distribuir a comunhão. Reflexão esta que partilho aqui com você(s).

            De saída, lembro-me da Eucaristia como um imenso e maravilhoso presente que Deus dá para nós. Então me vêem as seguintes perguntas: O que significa, por exemplo, a ação dar um presente a alguém? E como é que a gente costuma entregar um presente a alguém? Fazemos com que atitude? E como será que Jesus faria ao nos entregar e distribuir o seu próprio corpo, ao nos ‘presentear’ seu próprio corpo? Com que postura humana e espiritual o faria? E como é que, então, hoje em nossas comunidades vamos entregar (distribuir) para as pessoas o maior presente da história da humanidade, o corpo do Senhor?

            Dar pessoalmente um presente para alguém... Trata-se de um ato relacional profundamente humano. Pois nele a pessoa que dá o presente entrega-se a si mesma, seu amor, sua amizade, seu carinho, sua admiração, seu reconhecimento, à pessoa presenteada. Olha nos olhos dela, esboçando-lhe um espontâneo sorriso, com a satisfação de quem de fato a ama e a admira. E esta (a pessoa que recebe), por sua vez, acolhe o dom com a gratidão e a alegria de quem se sentiu profundamente amada e acolhida.

            Distribuir a comunhão, igualmente, é um ato relacional humano. Divinamente humano, pois nele o(a) ministro(a) do Senhor entrega às pessoas o presente maior, o corpo de Cristo. E nele (no ato de entregar este dom), o(a) ministro(a), precisamente por ser ministro(a) do Senhor, e consciente desta missão, faz as vezes do Senhor, ou seja, entrega-se também a si mesmo(a), seu amor, sua amizade, seu carinho, sua admiração, seu reconhecimento, à pessoa agraciada. Olha nos olhos dela com os olhos amorosos do Senhor e “mostra-lhe a hóstia um pouco elevada, dizendo: O Corpo de Cristo” (Instrução Geral sobre o Missal Romano, n. 161). Entrega-lhe o pão da vida vivenciando a própria atitude de Cristo, ou seja, como quem igualmente se põe numa entrega. E a pessoa que recebe, por sua vez, acolhe o dom com a gratidão e a alegria de quem se sentiu profundamente amada e acolhida, dizendo: “Amem”.

            Por isso podemos dizer que o ato de distribuir a comunhão, ou melhor, de entregar o corpo de Cristo e recebê-lo, é uma ação litúrgica, uma ação eminentemente celebrativa, uma forma de celebrar... Celebrar o quê? A presença de um mistério. De que mistério? Do mistério de uma relação humana e divina (e vice-versa), expressa no gesto dar e receber, no qual experimentamos Cristo se entregando gratuitamente como alimento e, ao mesmo tempo, no ato de acolhê-lo, vivenciamos nossa entrega a ele para viver o seu amor.

           

           

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

  1. Como (com que atitude) em sua comunidade o padre, o diácono, ou outro ministro, distribuem a comunhão para as pessoas?
  2. O que você experimenta na hora em que o padre, o diácono, ou outro ministro, lhe entregam a sagrada comunhão? Por quê?
  3. O que experimentamos quando damos ou recebemos um presente? Por quê?
  4. Como deve ser a postura humana e espiritual do ministro e da ministra no momento de distribuir a comunhão às pessoas? Por quê?
  5. Dá para experimentar no rosto, no olhar e na atitude do ministro que dá a comunhão o rosto, olhar e a atitude do próprio Cristo? Por que?
  6. Por que distribuir a comunhão é uma ação litúrgica?

 

 

 

Formação litúrgica espiritual.

 

Ione Buyst

 

 

Todas as celebrações litúrgicas são 'ações rituais', simbólico-sacramentais, que vem carregadas de uma profunda realidade teologal. Por isso, a formação litúrgica deve se preocupar com a ritualidade e com teologia litúrgica. Mas não basta. Devemos abrir caminhos para que as pessoas aprendam a 'beber' da liturgia como sendo fonte da vida espiritual cristã. Por que? Para nós, cristãos, 'vida espiritual' é 'vida no Espírito de Jesus Cristo'. E este Espírito nos é dado, ele é dom do Pai. Mas, onde nos é dado o Espírito de Jesus Cristo? O lugar principal, a fonte 'primeira e necessária' (SC 14), são as celebrações litúrgicas: o batismo, a confirmação, a eucaristia, a celebração da palavra, o ofício divino, o ano litúrgico, as bênçãos, etc... (contanto que sejam, de fato, celebradas com qualidade espiritual, e não como puro formalismo!). E como funciona isso? De que forma temos acesso a este dom do Pai? Não basta simplesmente 'assistir' às celebrações litúrgicas; é preciso abrir nosso próprio espírito para receber o Espírito de Jesus Cristo, o Espírito de Deus. É preciso prestar atenção a cada gesto, cada palavra..., participar corporal e espiritualmente. Pois é! Esta é a característica da espiritualidade litúrgica: ela passa pelo corpo, atento e sensível. As ações litúrgicas são ações do próprio Cristo e de seu Espírito para nos fazer parte de sua vida, para vivermos constantemente em comunhão com ele e com o Pai. Voltando à imagem da fonte: pela participação corporal-espiritual na liturgia, 'bebemos' o jeito de ser de Jesus, sua relação com o Pai e com o povo, sua entrega radical a serviço do Reino e nos deixamos 'moldar' por ele mediante o encontro com os irmãos e irmãs, os salmos, as orações, a escuta e interpretação das leituras bíblicas, as ações simbólicas, a música ritual, o espaço litúrgico... Somos assim como que 'encharcados' pelo Espírito de amor que nos leva a viver em união com Jesus, continuando em nossa história atual a missão dele, abrindo espaço para a vinda do Reino de Deus em todas as realidades de nossa vida pessoal e social. Portanto, nada de confundir 'Espírito Santo' e 'espiritualidade' com intimismo ou sentimentalismo. Interioridade, sim; intimismo, não. Afeto e sentimento, sim; sentimentalismo, não. 

E por falar em interioridade: é uma dimensão do ser humano muito esquecida hoje em dia. Muita gente perdeu (ou nunca teve) contato com seu 'eu' mais genuíno, mais profundo, onde nos aguarda Deus, o Mistério. O que podemos fazer para crescer em interioridade? Algumas coisas bem simples podem ser um bom começo: 1- Aprenda a respirar conscientemente, profundamente, prestando atenção a cada inspiração e expiração, 'conectando' com Deus, lembrando que nosso 'sopro' é símbolo do próprio Espírito de Deus que anima todo o nosso ser. 2- Sempre que puder (no ônibus, no metrô, antes de levantar ou se deitar, nos intervalos...), pare, fique em silêncio, olhe para dentro de si e 'pense na vida', sinta-se em comunhão com as outras pessoas, com as árvores, as flores, os pássaros, as estrelas... e com Deus! 3- Adquira o hábito de fazer um ou dois momentos de meditação a cada dia, com um texto bíblico (leitura orante) ou simplesmente repetindo, de coração, uma invocação bíblica, como por exemplo, Maranatha (Vem, Senhor Jesus!), ou Senhor Jesus, tem compaixão... Fazendo assim, o Espírito Santo encontrará a porta aberto para nos atingir profundamente, em nossa interioridade, como discípulos/as, para depois nos 'lançar' como missionários/as, para fora, na sociedade, no mundo, na busca de uma maneira mais solidária e igualitária de se organizar a sociedade.

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Qual é a relação entre liturgia e espiritualidade em nossas comunidades, nossos grupos e movimentos?

2.         Quando se pensa em 'espiritualidade', a liturgia está incluída no horizonte? Quando se organiza momentos de espiritualidade, a liturgia faz parte da programação? Faz parte, como 'apêndice' ou 'enfeite' ou como 'fonte'? 

 

 

 

“LITURGIA”

NOS ESCRITOS DO APÓSTOLO PAULO

 

 

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 

 

A palavra “liturgia” é uma palavra grega. Na língua grega ela tem a ver, no fundo, com “prestação de serviço”, serviço geralmente comunitário.

Paulo escreveu suas cartas em grego, sendo que em três delas (Rm, Fl e 2Cor), falando da novidade cristã, usou sete vezes a palavra “liturgia” ou seu derivado “liturgo” e que, em algumas Bíblias, se traduz por “ministério”, “ministro” e “oferta”.  

Falando do respeito que os cristãos devem às autoridades (Rm 13,1-7), o apóstolo chama os magistrados de “liturgos” (ministros) de Deus (Rm 13,6). Em outras palavras, como são “instituídos por Deus” (v. 1) para cuidar do bem comum da sociedade (como se supõe), eles são “prestadores de serviço” (liturgos) do próprio Deus.

Em outro lugar, o apóstolo afirma que os cristãos de origem pagã, em retribuição por terem recebido da tradição judaica (por Cristo) a graça de serem cristãos, devem “prestar serviço” (liturgia) às comunidades cristãs judaicas, ajudando-as com bens materiais (Rm 15,27). De fato, recolher esmolas para a carente comunidade cristã de Jerusalém é uma “liturgia” (2Cor 9,12), ou seja, uma “prestação de serviço” que, com certeza, redunda em ação de graças a Deus e em benefício também para quem fez a oferta (cf. vv. 6-16).

Ou ainda: Epafrodito, companheiro de trabalho e de lutas de Paulo, levando para o apóstolo as ofertas dos filipenses, foi-lhe um valioso “liturgo” (prestador de serviço), “prestou-lhe um atencioso serviço” (liturgia) (Fl 2,25.30).

Como se vê, Paulo usa a palavra “liturgia” no seu sentido originário grego para falar da “prestação de serviço” social (comunitário), por parte das autoridades e dos cristãos em geral, como forma de, no fundo, honrar o próprio Deus. A palavra “liturgia”, portanto, para Paulo cheira compromisso social, compromisso com a vida, cheira o que é essencial na “novidade” cristã: “a fé que opera pela caridade” (Gl 5,6; cf. 1Cor 13,1-13).

O próprio Paulo, na qualidade de evangelizador, se autodenomina “liturgo” também, isto é, “prestador de serviço” (ministro, colaborador) da boa nova junto aos pagãos, para que a entrega deles em Cristo ao serviço fraterno uns dos outros seja aceita e santificada pelo Espírito Santo. Diz o apóstolo, textualmente: “Sou ministro (liturgo) de Cristo Jesus entre os pagãos, encarregado de um ministério sagrado no Evangelho de Deus, para que a oblação dos pagãos [sua entrega a serviço do projeto de Cristo] seja aceita e santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16).

Assim sendo, Paulo chega a se declarar disposto a derramar seu sangue (se for o caso) sobre o sacrifício e a oferta (liturgia) da fé dos filipenses (Fl 2,17). Em outras palavras, a fé dos filipenses transformada em compromisso fraterno é um verdadeiro sacrifício, uma “liturgia” (uma prestação de serviço) para o próprio Deus. Por este sacrifício e esta “liturgia”, Paulo se dispõe a arriscar tudo de si, o que lhe é inclusive motivo de alegria e congratulação para com os filipenses.

Concluindo, a palavra “liturgia” nos escritos do apóstolo Paulo evoca bem aquele culto espiritual proclamado pelos profetas e vivido em plenitude por Jesus Cristo como ação (trabalho, luta) em favor dos pobres, em favor de uma comunidade humana justa e fraterna. Culto espiritual, cuja causa é a causa do Reino “da verdade e da vida, da santidade e da graça, da justiça, do amor e da paz” (cf. Prefácio da Solenidade de Cristo Rei). Da “liturgia” como “prestação de serviço” desabrocha e cresce a vida do ser humano e isso é a glória de Deus (Santo Ireneu).

 

 

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

 

1.    “Liturgia” em seu sentido originário significa o quê?

2.    Em que sentido Paulo usa em seus escritos a palavra “liturgia”?

3.    Em sua comunidade existem “liturgias” e “liturgos” no sentido paulino?

4.    Pode citar alguns exemplos?

 

“O AMOR JAMAIS ACABARÁ”

 

Pe. Videlson Teles de Meneses

Assessor da Comissão Episcopal Pastoral

para a Animação Bíblico-Catequética

 

 

O Ano Paulino foi convocado pelo papa Bento XVI no dia 28 de junho de 2007, com o objetivo de comemorar o segundo milênio do nascimento do Apóstolo das Nações, que é datado por volta do ano 7 a 10 d.C.

Este ano jubilar deseja ser uma ocasião para “redescobrir a figura do Apóstolo Paulo, reler suas numerosas cartas, aprofundar seus ensinamentos, mergulhar em sua espiritualidade, revitalizar a fé, rezar e trabalhar pela unidade de todos os cristãos”.

O papa assinalou a dimensão ecumênica do evento, já que São Paulo, “particularmente empenhado em levar a Boa Nova a todos os povos, se dedicou completamente em favor da unidade e da concórdia de todos os cristãos”. Esta será uma das características marcantes do Ano Paulino. Além disso, “a capela destinada ao batistério, na basílica e claustro de São Paulo Fora dos Muros, se transformará na Capela Ecumênica destinada a oferecer aos irmãos cristãos que solicitarem, um lugar especial de oração, tanto para rezar em grupo como para orar unidos aos católicos”.

A abertura oficial se dará na Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, na tarde de 28 de junho de 2008, quando o Papa Bento XVI abrirá a “Porta Paulina” para dar início às celebrações e rezará as Vésperas da Solenidade.

Há várias sugestões de atividades, que podem ser desenvolvidas: eventos litúrgicos, culturais e ecumênicos; iniciativas pastorais e sociais inspiradas na espiritualidade paulina. Eis alguns exemplos: celebrações litúrgicas, encontros de oração, catequeses sobre São Paulo, conferências, congressos, concertos, exposições, estudo das cartas paulinas, peregrinações a igrejas que tenham São Paulo como padroeiro. Isto pode ser realizado por grupos, escolas, pastorais, comunidades paroquiais, dioceses, institutos, congregações religiosas. Maiores informações podem ser obtidas na página do Vaticano: www.annopaolino.org.

            No Brasil, a CNBB, através da Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética, está lançando um roteiro de encontros para círculos bíblicos e grupos de reflexão sobre a vida e a missão de Paulo, com 20 encontros. Ademais, o Mês da Bíblia deste ano terá como livro bíblico de estudo a 1ª carta de São Paulo aos Coríntios, com o tema: A caridade sustenta a comunidade, e o lema: “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8). Ainda teremos artigos na página da CNBB (www.cnbb.org.br) sobre o Apóstolo Paulo, sua missão e suas cartas. Sugere-se ainda que os bispos, padres, diáconos e ministros da palavra leigos aproveitem os textos litúrgicos paulinos para aprofundar a mensagem do Apóstolo e tornar sua mensagem mais acessível.

            Aproveitemos este ano para conhecer mais o Apóstolo e suas cartas, a fim de usufruir de sua mensagem e espiritualidade, que nos orientam no seguimento de Jesus.

 

 

 

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1. Como nossas equipes de liturgia poderão vivenciar este “Ano Paulino”?

2. Quais os textos das Cartas de Paulo que nos falam sobre a Liturgia?

3. Nos próximos artigos da Liturgia em Mutirão II trataremos sobre alguns aspectos e dimensões da Liturgia a partir das Cartas Paulinas.

 

 

 

HÓSTIA

O que esta palavra lhe sugere?

 

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 

Certa vez, pensando sobre o “Sacramento da Caridade”, me fiz a seguinte pergunta: Por que será que costumamos associar “eucaristia” com “hóstia”. Fala-se em adorar a hóstia, ajoelhar-se diante da hóstia, levar a hóstia em procissão (na festa de Corpus Christi), guardar a hóstia...  Uma criança chegou certa vez para a catequista e perguntou: “Tia, quanto tempo falta para eu tomar a hóstia?” (Referia-se à primeira comunhão).

Tive então a idéia de ir atrás da origem da palavra “hóstia”. Corri para um dicionário (aliás, vários), e me dei conta que esta palavra vem do latim. Descobri que, em latim, “hóstia” é praticamente sinônimo de “vítima”. Ao animal sacrificado em honra dos deuses, à vítima oferecida em sacrifício à divindade, os romanos (que falavam latim) chamavam de “hóstia”. Ao soldado tombado na guerra vítima da agressão inimiga, defendendo o imperador e a pátria, chamavam de “hóstia”.

Ligada à palavra “hóstia” está a palavra latina “hóstis”, que significa: “o inimigo”. Daí vem a palavra “hostil” (agressivo, ameaçador, inimigo), “hostilizar” (agredir, provocar, ameaçar). E a vítima fatal de uma agressão, por conseguinte, é uma “hóstia”.

Então, aconteceu o seguinte: O cristianismo, ao entrar em contato com a cultura latina, agregou no seu linguajar teológico e litúrgico a palavra “hóstia”, exatamente para referir-se à maior “vítima” fatal da agressão humana: Cristo morto e ressuscitado. Os cristãos adotaram a palavra “hóstia” para referir-se ao Cordeiro imolado (vitimado) e, ao mesmo tempo ressuscitado, presente no memorial eucarístico.

            A palavra “hóstia” passa, pois, a significar a realidade que Cristo mesmo mostrou naquela ceia derradeira: “Isto é o meu corpo entregue... o meu sangue derramado”. O pão consagrado, portanto, é uma “hóstia”, aliás, a “hóstia” verdadeira, isto é, o próprio Corpo do ressuscitado, uma vez mortalmente agredido pela maldade humana, e agora vivo entre nós feito pão e vinho, entregue para ser comida e bebida: Tomai e comei..., tomai e bebei...

Infelizmente, com o correr dos tempos, perdeu-se muito este sentido profundamente teológico e espiritual que assumiu a palavra “hóstia” na liturgia do cristianismo romano primitivo, e se fixou quase que só na materialidade da “partícula circular de massa de pão ázimo que é consagrada na missa”. A tal ponto de acabamos por chamar de “hóstia” até mesmo as partículas ainda não consagradas!

Hoje, quando falo em “hóstia”, penso na “vítima pascal”, penso na morte de Cristo e sua ressurreição, penso no mistério pascal. Hóstia para mim é isto: a morte do Senhor e sua ressurreição, sua total entrega por nós, presente no pão e no vinho consagrados. Por isso que, após a invocação do Espírito Santo sobre o pão e o vinho e a narração da última ceia do Senhor, na missa, toda a assembléia canta: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”. 

Diante desta “hóstia”, isto é, diante deste mistério, a gente se inclina em profunda reverência, se ajoelha e mergulha em profunda contemplação, assumindo o compromisso de ser também assim: corpo oferecido “como hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rm 12,1). Adorar a “hóstia” significa render-se ao seu mistério para vivê-lo no dia-a-dia. E comungar a “hóstia” significa assimilar o seu mistério na totalidade do nosso ser para se tornar o que Cristo é: entrega de si a serviço dos irmãos, hóstia.

E agora entendo melhor quando o Concílio Vaticano II, ao exortar para a participação consciente, piedosa e ativa no “sacrossanto mistério da eucaristia”, completa: “E aprendam a oferecer-se a si próprios (grifo nosso) oferecendo a hóstia imaculada, não só pelas mãos do sacerdote, mas também juntamente com ele e, assim, tendo a Cristo como Mediador, dia a dia se aperfeiçoem na união com Deus e entre si, para que, finalmente, Deus seja tudo em todos” (SC 48).

             


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Quando você pronuncia a palavra “hóstia”, o que é que lhe vem de imediato na sua cabeça?

2.         O que significa a palavra “hóstia”, vinda do latim?

3.         Na nossa linguagem cristã, a palavra “hóstia” significa então o quê?

4.         O que significa comungar a “hóstia”?

5.         O que significa adorar a “hóstia”?

 

 

 

Formação litúrgica teologal

 

Ione Buyst

 

Para conhecer e compreender a liturgia, é preciso saber ver para além daquilo que se vê, ouvir para além daquilo que é falado e cantado, saborear além daquilo que é servido. É que ‘liturgia’ é um acontecimento teologal: Deus vem ao nosso encontro e nos atinge de cheio com sua palavra e sua ação transformadora, por meio das ações rituais, simbólico-sacramentais. Olhemos hoje mais de perto este lado ‘escondido’ da liturgia, o ‘mistério’ que nela celebramos, aquilo que Deus - Pai, Filho, Espírito Santo - realiza em nós, conforme nos ensinam os textos litúrgicos, tirados das sagradas escrituras ou nelas inspiradas.

Fomos batizados/as na água da fonte batismal. São Paulo nos fala do sentido ‘escondido’ deste nosso batismo: “Fomos sepultados com ele [Cristo] na sua morte, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos para a glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. Se nos tornamos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, o seremos igualmente por uma comum ressurreição” (Rm 6). Somos assim, para sempre, destinados/as a carregar em nós as marcas da morte e da ressurreição de Cristo e de viver de acordo com esta realidade.    

Fomos confirmados/as com o óleo do santo crisma e a imposição das mãos do bispo. As palavras que acompanham esta ação nos ensinam a realidade ‘escondida’ que acontece conosco: “Receba, por este sinal, o Espírito Santo, dom de Deus.” A partir deste momento, somos destinados/as a viver de acordo com este Espírito. 

Celebramos juntos e juntas a liturgia eucarística em volta da mesa com pão e vinho; e, bem no coração desta liturgia, depois da narrativa da última ceia, cantamos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Eis, de fato, o ‘mistério de nossa fé’, o sentido escondido, a realidade sacramental. Pela ‘memória’ litúrgica, pela ação do Espírito Santo, acontece em nós aquilo que celebramos: juntos participamos da morte e ressurreição de Jesus, enquanto esperamos a plena realização de seu Reino entre nós. Comungando do Pão e do Vinho sobre a qual foi pronunciada a ação de graças e invocado o Espírito Santo, somos feitos um só Corpo em Cristo morto e ressuscitado.

‘Mistério da fé!’ Em que consiste, pois, ‘nossa fé’? Não se trata simplesmente de uma atitude religiosa, reverente, para com o mistério da vida. Isso é importante, mas não basta.  O ‘mistério da fé’ proclamado na liturgia cristã, refere-se à ‘fé’ recebida dos apóstolos e transmitida de geração em geração. É sintetizada no ‘Creio...’. Expressa nossa aceitação, nossa adesão à pessoa de Jesus, reconhecido com o revelador de Deus, e adesão ao projeto do Reino de Deus que ele veio proclamar e inaugurar, como relatam os evangelhos. E isso só é possível, porque o Espírito de Deus, que nos foi dado, nos ajuda a compreender e viver aquilo que cremos. Ele nos transforma gradativamente em gente renovada, gente que sabe interpretar os sinais da presença de Deus no dia-a-dia e que dá testemunho do amor de Deus pelo seu modo de viver e atuar na sociedade.

Liturgia é uma ação ritual, expressão simbólico-sacramental de nossa fé.  É o ‘mistério de nossa fé’ como que ‘escondido’ nos ‘sinais sensíveis’ da celebração litúrgica. Não basta participar ‘exteriormente’, é preciso deixar-se transformar interiormente pela ação do Espírito do Cristo Ressuscitado, que atua nas ações litúrgicas.

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Já tive a oportunidade de conhecer o mistério celebrado, o sentido ‘escondido’, nas ações litúrgicas?  Como?

2.         O que me ajuda a prestar atenção e a viver este sentido ‘escondido’ durante a liturgia? O que me atrapalha?

 

 

 

 

A LITURGIA QUE CELEBRAMOS

POR OCASIÃO DAS FESTAS JUNINAS