Bento XVI: liturgia não é

«algo acrescentado» à vida cristã,

mas seu «coração»

O Papa responde às perguntas dos párocos da diocese de Roma

Por Inma Álvarez 

 

ROMA, quinta-feira, 5 de março de 2009 (ZENIT.org).- Bento XVI considera que a liturgia «não é algo estranho» no afazer da paróquia, mas o «ponto de unificação» e inclusive o «coração» do qual vem a força para agir. 

Esta foi a resposta que o Papa ofereceu ao Pe. Marco Valentini, vigário na paróquia de Santo Ambrósio, durante o encontro que teve com os párocos da diocese de Roma, em 26 de fevereiro passado. 

O Papa respondeu que «todos nós devemos aprender melhor a liturgia, não como algo exótico , mas como o coração de nosso ser cristão». 

A celebração litúrgica dos sacramentos, explicou, não deve ser «algo estranho junto a trabalhos mais contemporâneos como a educação moral, econômica etc. Pode acontecer facilmente que o sacramento fique um pouco isolado em um contexto mais pragmático e se converta em uma realidade não totalmente integrada na totalidade de nosso ser humano», admitiu. 

O pontífice destacou a necessidade de que os fiéis «redescubram» a Eucaristia em toda a sua plenitude. 

«Devemos aprender a celebrar a Eucaristia, aprender a conhecer Jesus Cristo, o Deus com rosto humano, de perto, entrar realmente em contato com Ele, aprender a escutá-lo e aprender a deixá-lo entrar em nós», explicou. 

A comunhão sacramental «é precisamente esta interação entre duas pessoas. Não pego um pedaço de pão ou de carne, mas pego ou abro meu coração para que o Ressuscitado entre no contexto do meu ser, para que esteja dentro de mim e não só fora de mim, e assim fale comigo e transforme meu ser, me dê o sentido da justiça, o dinamismo da justiça, em zelo pelo Evangelho». 

Diante disso, acrescentou, «devemos colaborar todos em celebrar cada vez mais profundamente a Eucaristia: não só como rito, mas como processo existencial que me toca em minha intimidade, mais que qualquer outra coisa, e me muda, me transforma. E transformando-me, dá início à transformação do mundo que o Senhor deseja e da qual quer fazer-me instrumento». 

Mais catequese mistagógica

O Papa afirmou também a necessidade de que as pessoas ofereçam maior formação aos fiéis nos mistérios que se celebram na liturgia, ou seja, mais catequese mistagógica. 

«Os mistérios não são uma coisa exótica no cosmos das realidades mais práticas. O mistério é o coração do qual vem nossa força e ao qual voltamos para encontrar este centro», declarou. 

Acrescentou que a catequese mistagógica «é realmente importante», porque «se refere à nossa vida de homens de hoje». 

O Papa destacou que a celebração dos mistérios da fé revelam o próprio ser do homem: «Realmente, nós devemos ensinar a ser homens. Devemos ensinar esta grande arte: como ser um homem. Isto exige, como vimos, muitas coisas: desde a grande denúncia do pecado original nas raízes de nossa economia e de tantos aspectos de nossa vida , até guias concretos sobre a justiça, até o anúncio aos não-crentes». 

«Se é verdade que o homem em si não tem sua medida – o que é justo e o que não é – mas encontra sua medida fora dele, em Deus, é importante que este Deus não seja distante, mas reconhecível, concreto, que entre em nossa vida e seja realmente um amigo com o qual podemos falar e que fala conosco», acrescentou. 

Neste sentido, afirmou que a catequese sacramental «deve ser uma catequese existencial. Naturalmente, ainda aceitando e aprendendo cada vez mais o aspecto de mistério – ali onde acabam as palavras e os raciocínios – esta é totalmente realista, porque me leva a Deus, e Deus a mim». 

«Em outras palavras, a catequese eucarística e sacramental deve realmente chegar ao profundo de nossa existência, ser precisamente educação para abrir-me à voz de Deus, a deixar-me abrir para que rompa esse pecado original do egoísmo e seja abertura de minha existência em profundidade, de maneira que eu possa chegar a ser um verdadeiro justo», concluiu.

EIS O LENHO DA CRUZ!

Alguns elementos para celebrar a Páscoa da Cruz

 

Pe. Ms. José Adalberto Salvini,

Pastoral Litúrgica da Diocese de Jaboticabal.

 

Ao narrar a Paixão de Jesus Cristo os evangelistas nos informam que, atendendo ao pedido da multidão, por mandato expresso de Pôncio Pilatos, o Filho de Deus feito Homem no mistério da encarnação, foi crucificado no madeiro de uma cruz, conforme o costume romano (Cf. Mt 26; Mc 14-15; Lc 22-23; Jo 19). Outros textos da sagrada escritura apontam para este fato como sendo o admirável cumprimento das promessas de Deus Pai, que acalentou nos séculos e fez realizar em nosso tempo misterioso desígnio da redenção de toda a humanidade pecadora, exatamente pelo precioso Sangue vertido no lenho da cruz (Rm 3,24; Ef 1,7 etc).

Nas primitivas comunidades cristãs este fato ganhou relevância e à medida em que historicamente se estruturaram as celebrações da semana santa, surgiu o piedoso costume de “adorar o lenho da cruz”. Atualmente, este rito se realiza anualmente, em cada 6ª-feira da Paixão, costumeiramente às três horas da tarde.

Obviamente, o rito enquanto “parte” está integrado no “todo” da celebração. Para entendê-lo, precisamos nos debruçar sobre suas origens e evolução, bem como adentrar em sua mística teológica. Assim sendo, nesta reflexão nos interessam três coisa: situar a celebração da paixão no contexto de suas origens e evolução até nossos dias, analisar sua atual estrutura na liturgia romana e, por fim, intuir algumas implicações teológicas para a vida cristã.

 

1. Em busca das origens e evolução da celebração da Paixão do Senhor

Sabemos que desde as primeiras comunidades cristãs o centro de todas as celebrações litúrgicas sempre foi o mistério pascal de Jesus Cristo, cujo núcleo consiste exatamente na paixão, morte e ressurreição do Senhor.

A partir daquele “primeiro dia da semana” em que Jesus Cristo após ter sido crucificado, morto e sepultado ressurgiu dentre os mortos, o “domingo”, ou seja, “dia do Senhor”, adquiriu identidade própria e ocupou em definitivo o lugar do sábado, memorial da páscoa hebraica. Eis que este dia tornou-se para os cristãos, de geração em geração, o “dia semanal” da celebração memorial da páscoa do único Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

A reunião eucarística, chamada de “fração do pão”, de acordo com a tradição da Igreja sempre foi considerada um momento especial da proclamação testemunhal do mistério pascal, atualmente expressa pela aclamação litúrgica: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte e proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus”.

Com o passar do tempo a celebração do núcleo pascal destacou-se com maior festividade uma vez ao ano. Não demorou a que este único mistério se desdobrasse noutros momentos celebrativos que particularizaram os “vários momentos” da experiência vivenciada por Cristo. Assim, gradativamente se passou a recordar a entrada triunfal de Jesus na cidade Santa de Jerusalém, sua última ceia com os discípulos, sua oração no horto das oliveiras, a traição feita por seu amigo Iscariotes, sua prisão, julgamento e condenação, o caminho percorrido até o calvário, sua morte na cruz, sepultura e descida à mansão dos mortos e, finalmente, sua gloriosa ressurreição dentre os mortos ao terceiro dia.

No recorte desta reflexão tratamos apenas sobre a origem de uma destas celebrações, ou seja, a “celebração da paixão do Senhor” e, mais especificamente, sobre o “rito da adoração da cruz”.

Em Jerusalém, já no primeiro século d.C. surgiu na manhã do sábado santo uma celebração da Palavra na qual, às bases da liturgia judaica, se proclamava o mistério da paixão de Cristo. Consistia em cantos, leituras, meditação e orações solenes. Porém, foi em Roma, um pouco mais tarde, que a celebração passou a se iniciar com a prostração do bispo, seguida de uma oração.

No séc. IV, houve uma mulher, chamada Etéria, que relatou em seu diário a experiência que vivera em uma peregrinação feita a Jerusalém. Dentre outros fatos, ela nos informa que sobre uma mesa coberta com panos de linho o bispo apresentava aos fiéis um estojo de prata dourada onde se guardava o lenho da cruz. Conforme o seu testemunho, tanto os fiéis, quanto os catecúmenos se aproximavam do santo lenho da seguinte maneira: “todos desfilavam um por um lá frente à cruz: inclinavam-se, tocavam primeiro com a fronte, depois com os olhos a cruz e a inscrição, depois beijam a cruz e se retiram, mas ninguém a toca com as mãos” (Etéria 37,3).

Em Roma, onde se conservava fragmentos do santo lenho, também se introduziu uma celebração semelhante à descrita pela peregrina Etéria, não obstante essa celebração tenha se distinguido em vários aspectos daquela realizada em Jerusalém. É de se esperar que naqueles tempos que os costumes estavam plenamente abertos às riquezas de outras culturas, os diversos papas, sobretudo os de origem oriental, influenciaram significativamente a celebração feita em Roma.

A partir dos sécs. VIII e IX, a procissão em direção ao santo lenho passou a ser acompanhada de um cântico, o da antífona “Eis o lenho da Cruz”, sendo acompanhado com o salmo 118. Com o tempo surgiram outras antífonas: “Salvai-nos, ó Cristo” e “Adoramos a vossa cruz”. Mais tarde se acrescentou o hino “Canta a Igreja ao Rei do Mundo” (Pange lingua), com a estrofe “Cruz fiel”.

Em nenhum dos vários ritos conhecidos se encontra o uso de cobrir nem de descobrir a cruz. Este costume só apareceu no séc. XII, com clara influência da dramatização própria desta época. Outros cânticos foram gradativamente acrescentados, tais como o “Trissagio” e os “Impropérios” (Lamentos de Cristo).

Mas, há quem hoje se pergunte se na celebração o “objeto” que se adora é a cruz “sem” ou “com” a “imagem de Jesus Crucificado”. Primeiramente afirmamos que em suas origens o rito não podia comportar uma imagem do Crucificado, pelo simples fato de que o “objeto” apresentado era, por suposto, o “verdadeiro lenho da cruz” e não outro. Obviamente, ao multiplicarem-se as celebrações por toda a parte, a cruz, enquanto “objeto iconográfico” passou a ser um “sinal sensível” daquele “verdadeiro e único lenho”, do qual pendeu a salvação do mundo. Quanto ao acréscimo da imagem do Corpo do Crucificado, não encontrei nenhum registro de qual época precisamente se iniciou este costume; no entanto, pensemos que de acordo com a piedosa devoção dos fiéis tenha sido naturalmente introduzido juntamente com o “uso das imagens”, no mesmo período em que se enfatizou a dramatização do mistério e o velamento da cruz. É certo que atualmente, na tradição romana, o papa utiliza uma cruz com a imagem do Crucificado, que vai sendo aos poucos desvelada, e não apenas um lenho.

Quanto à comunhão sacramental, até o séc. VII este rito não compunha as partes da celebração. Só a partir de então é que apareceu a comunhão do povo, que devia comungar o que havia sido conservado da celebração precedente, ou seja, da celebração vespertina da ceia do Senhor. Porém, nem o papa, nem os bispos comungavam; apenas os fiéis. Nesta época a comunhão se dava sob as duas espécies e a reserva se fazia tanto do pão, quanto do vinho consagrados. Estes costumes mudaram a ponto que no séc. XVIII apenas o papa comungava. Este costume prevaleceu até 1955, quando a reforma do rito introduziu a comunhão também dos fiéis, que perdura até nossos dias. Isto implica dizer que no primeiro dia do tríduo pascal os fiéis participam duas vezes da comunhão sacramental: a primeira vez, do pão e do vinho consagrados na “celebração eucarística” da ceia do Senhor; a segunda vez, durante a “celebração da paixão”, apenas do pão conservado na reserva eucarística. Obviamente, esta segunda celebração não se trata de “outra missa” mas, sim, de uma “celebração da Palavra”.

 

2. A atual estrutura da celebração da Paixão do Senhor

No atual Missal Romano, promulgado sob a autoridade de Paulo VI, fruto da reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II, a celebração da paixão do Senhor se estrutura organizada em três partes: 1) a liturgia da Palavra; 2) a adoração da cruz; 3) a comunhão sacramental.

Para o início da celebração o altar deve estar sem toalha e qualquer outro tipo de ornamentação, pois nesta hora, conforme antiquíssima tradição a igreja não celebra o sacramento. Os ministros aproximam-se do altar e fazem-lhe a reverência, podendo escolher entre prostrar-se ou ajoelhar-se. A atitude tanto dos ministros, quanto de toda a assembléia, deve ser de um profunto silêncio orante, que se rompe com uma oração inicial. Nesta prece se recorda a imensa misericórdia divina, que nos santifica pela paixão de Cristo; sua entrega na cruz destruiu a morte, consequência do primeiro pecado que foi transmitido a toda a humanidade. A súplica deste dia tem por finalidade obter a graça da configuração do fiel a Cristo, que, deste modo, torna-se, pela graça, uma nova criatura.

EIS O LENHO DA CRUZ! (parte II)

Introduzidos na celebração pelos ritos precedentes, a primeira parte se constitui da liturgia da Palavra. Conforme a proposta ritual, se lê um techo do profeta Isaías, cujo texto é o cântico do Servo Sofredor. Esta perícope proclama que a potência salvífica da ação divina passa pela humilhação de seu Servo. Este aceita o suplicio em favor da salvação do mundo. O Sl 30 é uma preciosa súplica em meio à provação. Com o seu grito de lamento o Justo demonsta sua inabalável confiança e se entrega inteiramente ao poder do único Deus no qual encontra a plena libertação. A epístola aos hebreus demonstra que de Jesus Cristo, desolado e obediênte até a morte e morte de cruz, provém a mediação favorável do único e eterno Sacerdote entre Deus e a humanidade pecadora. A sua obediência fiel aos desígnios do Pai é a causa da sua e de nossa exaltação! Com a narrativa do evangelho da Paixão (Jo 19), somos chamados a rememorar os acontecimentos da paixão não como “fato histórico” transcorrido no tempo, mas já interpretados pelo evangelista João na perspectiva salvífica que sua mensagem comporta. Daí decorre que “do lado dormido de Cristo na cruz” nasceu o admirável Sacramento da Igreja, Povo da nova e eterna Aliança, selada no Sangue de Cristo. Desta Aliança se participa mediante a graça da fé e pela adesão batismal.

Após a homilia se faz a oração universal que contém dez petições: pela santa igreja, pelo papa, por todas as ordens e categorias de fiéis, pelos catecúmenos, pela unidade dos cristãos, pelos judeus, pelos que não crêem no Cristo, pelos que não crêem em Deus, pelos poderes públicos e por todos os que sofrem provações. Esta oração encerra a primeira parte da celebração.

A segunda parte, entitulada “Adoração da cruz”, basicamente se constitui por dois elementos: apresentação do lenho com a respectiva exortação e a adoação propriamente dita, acompanhada de antífonas, cânticos e hinos.

São previstas, à livre escolha, duas formas de apresentação:

Na primeira forma a cruz é velada e levada ao altar por dois ministros com as velas. Quem preside, de pé diante do altar recebe a cruz e gradativamente vai descobrindo as partes (superior, braço direito e, por fim, a cruz toda), intercalando com o cânto da antífona e a resposta do povo. O canto da antífona não é necessariamente presidencial; ele pode ser entoado pelo bispo ou presbítero, mas se for conveniente, pode também ser entoado pelo diácono ou até mesmo pelo coro. A antífona e sua resposta se repete por três vezes e a cada vez todos se ajoelham e permanecem um momento adorando em silêncio, enquanto o presidente da celebração continua em pé, com a cruz erguida.

Na segunda forma o presidente (bispo ou sacerdote) ou o diácono, com os ministros ou, ainda outro ministro idôneo, dirige-se à porta da igreja, onde toma nas mãos a cruz sem véu, acompanhado pelos ministros com velas acesas, vai em procissão pela nave até o presbitério. O erguimento da cruz e o canto da antífona se faz à porta principal, no meio da nave e à entrada do presbitério.

Terminada a exortação se faz a adoração da cruz, pela qual se exprime a reverência pela genuflexão simples ou outro sinal apropriado, conforme o costume da região, por exemplo, beijando a cruz. Em alguns lugares, seguindo a prescrição indicada para o bispo, que neste momento pode tirar os sapatos, também os fiéis se aproximam da cruz com os pés descalços, em atitude de despojamento.

Durante a adoração cantam-se as antífonas “Adoramos, Senhor, vosso madeiro”, os “Lamentos do Senhor”, ou outros cantos apropriados, tais como: “Fiel madeiro da santa cruz”, “Em Jerusalém, prenderam Jesus”, “Ó cruz gloriosa”, “Bendita e louvada seja a paixão do Redentor”, “Vitória, tú reinarás, ó cruz tu nos salvarás” etc.

A veracidade do sinal exige apenas uma cruz, de modo que mesmo havendo grande número de fiéis não é permitido multiplicar as filas com “várias cruzes”, com o pretexto de “acelerar” a celebração. Tudo deve ser feito com a devida paciência e decoro, servindo-se dos ritos tanto quanto possam ajudar a contemplar o mistério através do qual Cristo salvou o mundo todo.

A terceira parte é a comunhão dos fiéis, feita com o pão da reserva eucarística. Inicia-se com a preparação da mesa e o translado do Santíssimo Sacramento e segue-se com a oração do Pai nosso, a exortação e a comunhão sacramental, a oração depois da comunhão e se conclui com uma oração sobre o povo.  

Sobre o altar estende-se a toalha e colocam-se o corporal e o livro. Pelo caminho mais curto, o diácono ou, na falta dele, o próprio presbítero, ou – por que não?! – o ministro extraordinário da Sagrada Comunhão Eucarística, acompanhado por dois ministros com velas acesas trás o Santíssimo Sacramento e coloca-o sobre o altar, estando todos em pé e em silêncio. As velas são colocadas perto do altar ou sobre ele. Segue-se a exortação do presidente e a oração do Pai-nosso, com o seu embolismo próprio e, omitinda a saudação da paz, faz-se o convite à comunhão sacramental. Terminada a comunhão dos fiéis, a âmbula com o Santíssimo Sacramento é transportada por um ministro competente para um lugar preparado fora da igreja, ou, se não for possível, para o próprio tabernáculo.

Após um momento de silêncio e a oração depois da comunhão, a celebração se conclui com a oração sobre o povo. Todos se retiram em silêncio e o altar é novamente desnudado. Assim, o 1º dia do tríduo pascal, que teve início com a celebração da ceia do Senhor, encerra-se ao pôr do sol da 6ª-feira santa.

 

3. Implicações teológicas para a vivência cristã

A celebração realizada na tarde do 1º dia do tríduo pascal nos faz compreender que Jesus Cristo foi exposto à paixão e se tornou o instrumento de propiciação, por meio de seu próprio sangue. Somos gratuitamente justificados mediante a fé, não por mérito humano, mas tão somente pelo beneplácito da graça divina.

A “salvação do mundo” foi inaugurada no calvário e já garantida pelo sinal do Espírito (Ef 1,14). Porém, esta redenção só se completará no fim dos tempos, ou seja, na parusia (Lc 21,28), com a libertação da morte pela ressurreição dos corpos. Na esperança, “possuímos as primícias do Espírito”, ainda que “gememos interiormente, suspirando pela redenção do nosso corpo” (Rm 8,23). Pressurosos, aguardamos a derradeira manifestação da plena libertação. Por isso, a Igreja ainda peregrina neste mundo, proclama o mistério pascal e grita incessantemente: “Maranatá, Vem Senhor!”.

Adorar a cruz é muito mais do que simplesmente aproximar-se de um “objeto” e reverenciá-lo. O objeto cruz nos remete a um mistério maior e é a este que nós adoramos. Não é qualquer cruz, mas sim a cruz de nosso Senhor e Redentor, Jesus Cristo! Pelos sacramentos, em particilar o batismo e a eucaristia, admiravelmente significados na água e no sangue que jorraram do lado aberto de Cristo na Cruz, somos ontologicamente configurados à sorte do Divino Mestre e formamos “um só Corpo” com Ele. Diz o apóstolo: “pelo batismo nós fomos sepultados com ele na morte para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova” (Rm 6,4). E ainda: “Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos”  (2Tm 2,11-12).

Adorar a cruz significa mergulhar no mistério e configurar-se de tal modo ao Cristo que possamos ser um com ele vivendo a perfeita comunhão. “Como ele fez”, também nós “devemos fazer”. Ele veio ao mundo com a missão de salvá-lo e por isso livremente entregou a sua vida numa cruz. Com ousada fidelidade, amou até o fim!

Infelizmente, ainda hoje vivemos num mundo marcado por tantas cruzes de violência que fazem eco da paixão do Senhor. O grito de tantas pessoas vitimadas pela crueldade dos poderosos deste mundo se faz sentir por toda parte. Diante disso, quem se faz Cirineu? Quem, como Verônica, é capaz de “enxugar” a verdadeira face?

O Cristo e Senhor, o mesmo que foi levantado no lenho da cruz, voltará. Enquando aguardamos sua vinda gloriosa, determinados sigamos os seus passos e sejamos fiéis partícipes de seu mistério. Tomemos em nossos ombros a nossa cruz e entreguemos a nossa vida para que o mundo tenha vida em abundância e conheça a redenção.

Com Cristo somos um! Pelo sinal da santa cruz haveremos de banir todo mal da face da terra e empunharemos a bandeira da vitória sobre o mundo. O perdão dos pecados é nosso alento e consolo. Que a contemplação do augusto mistério da cruz nos faça crescer na fé. E, ainda que na esperança já vibramos de alegria, pois em nós se confirma a plena libertação.

Paixão, morte e ressurreição de

Jesus no mistério da ceia

Pe. José Adalberto Salvini,

Assessor Diocesano para a Pastoral

Litúrgica da Diocese de Jaboticabal.

 

 

 

“Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e Sangue. Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando destarte à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vinculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado como aliemento, o espírito é repleto de graças e nos é dado o penhor da futura glória” (SC 47).

 

1. Sabemos que a Última Ceia de Jesus com seus Apóstolos foi um fato de suma importância na História da Salvação. No entanto, muitos são os que ainda desconhecem o sentido profundo dos gestos de Jesus nesta refeição sagrada e suas implicações para a vida dos que hoje comungam de seu Corpo e Sangue. Neste breve artigo o nosso objetivo será olhar o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus a partir do mistério da ceia, com vistas a discernirmos as implicações ético-pastorais na vida dos que hoje se reúnem como comensais ao redor da mesa eucarística.

2. Para início de conversa, a última ceia de Jesus com seus amigos foi narrada pelos autores da Sagrada Escritura de dois modos: em primeiro lugar, os textos sinóticos (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,15-20) e também a epístola de São Paulo (1Cor 11,23-26) que acentuam os gestos de Jesus com o pão e o vinho; em segundo lugar, temos o testemunho do evangelho de São João (Jo 13,1-17), que nos relata a atitude de Jesus que lava os pés dos seus amigos e lhes dá o novo mandamento do amor. Ambos os modos nos situam no contexto de uma refeição em comum, ou seja, a páscoa anual na qual os judeus celebram o memorial da libertação da escravidão que os seus antepassados sofreram no Egito e agradecem o fato de o Senhor os ter conduzido sãos e salvos à terra prometida, agindo com mão forte e braço poderoso ao derrotar o inimigo opressor por ocasião da passagem pelas águas do Mar Vermelho.

3. Em todos estes textos sagrados fica claro que os momentos antecedentes à paixão, morte e ressurreição de Jesus foram precedidos por uma última ceia de despedida com os seus amigos mais íntimos. Nela, Jesus antecipou através de gestos rituais a realidade de sua própria vida como uma entrega livre e generosa, reveladora de que a sua missão consistia em cumprir fielmente a vontade do Pai até as últimas conseqüências, mesmo que isto lhe custasse o preço da morte violenta numa Cruz.

4. O pão e o vinho oferecidos em comida ou o gesto do lava-pés tornaram-se sinais de uma realidade maior, ou seja, da própria autodoação de Cristo em favor da salvação do mundo e do compromisso de continuidade da sua missão por parte dos amigos que fazem a refeição com ele em todos os tempos.

5. Na ceia pascal judaica é costume bendizer ao Senhor tomando o alimento sagrado e lembrando a sua fidelidade e seu amor sempre fiéis. Outro elemento presente na refeição de louvor judaica é a esperança sempre renovada de um povo que aguarda confiante a manifestação definitiva de sua libertação. Por isso, durante a ceia sempre se proclama a certeza de que o Messias Senhor virá em breve. Foi exatamente ao tomar o pão e o vinho e bendizer ao Pai que Jesus interpretou de uma forma nova o antigo ritual de seu povo e revelou-se como sendo o próprio Messias esperado. Na partilha dos alimentos sagrados (pão e vinho) Jesus significou a sua entrega antecipando simbolicamente a realidade a ser experimentada e concretizada no mistério de sua paixão e morte de Cruz. O gesto do lava-pés teve o mesmo sentido de entrega serviçal de sua vida em favor de todos. Por meio deste serviço Ele realiza de uma vez por todas a libertação (salvação) não só de seu povo, mas de toda a humanidade. No desfecho de ambas atitudes – entrega dos alimentos e do lava-pé – Jesus deu aos seus a seguinte ordem: Fazei isto em memória de mim! Ora, é preciso que compreendamos o que Jesus fez, a fim de que possamos dar-lhe uma resposta amorosa e comprometida.

7. Fica evidente que a ordem de Jesus durante a ceia da despedida se refere não apenas em reproduzir um rito, mas em reproduzir a sua atitude de entrega, a autodoação livre e generosa em favor do Reino, em cumprimento perfeito da vontade do Pai. O novo mandamento do amor é o grande mistério que se revela na Ceia. Deus mesmo, na pessoa de seu Filho Amado, abaixou-se (kenosis) para servir o mundo e dar-lhe a plena liberdade. Cristo revelou este amor do Pai a ponto de assumir a Cruz tornando-se Corpo dado e Sangue derramado em favor de todos. Eis a razão pela qual não ficou humilhado no suplício da Cruz, mas foi exaltado e recebeu do Pai o nome que está acima de todo nome (Fl 2,7-11).

8. Cada vez que nós, cristãos, nos reunimos para celebrar a eucaristia, memorial da paixão, morte e ressureição do Senhor, nos colocamos na mesma dinâmica de vida assumida por Cristo e nos comprometemos a continuar o seu “serviço” em favor do mundo. Fazer o que Ele fez significa estar disposto a dar a própria vida pela humanização plena do homem e da mulher, ou seja, pela sua santificação. Todos os comungantes do Corpo e do Sangue de Cristo unem-se a Ele na força dinamizadora do Espírito Santificador e como um único Corpo Eclesial se tornam sacramento da presença de Jesus no mundo e se fazem os adoradores que o Pai procura (Jo 4,23).

9. O Mistério da Ceia nos faz contemplar o Messias que o povo de Israel tanto esperou. Faz-nos contemplar Aquele que nos amou até o fim e se ofereceu no altar da Cruz como Vítima Inocente (Cordeiro) capaz de tirar o pecado do mundo, o nosso pecado. Nele e por Ele temos a vida em plenitude já neste mundo, enquanto aguardamos pressurosos sua vinda gloriosa (Oração Eucarística sobre Reconciliação I).

10. Comer e beber com Ele é assumir o Plano que o Pai nos confia. Se hoje comungamos o Corpo e Sangue do Senhor, este gesto significa a nossa própria adesão e compromisso com a transformação do mundo presente, tão marcado pela cultura de morte. A mesma força que motivou Jesus a enfrentar a Cruz é a que hoje nos impulsiona a tomar a nossa Cruz de cada dia, e a dar os passos que nos levam pelo calvário da vida à certeza de que se o mundo nos crucifica é o Pai quem nos glorifica, tal e qual glorificou a seu Filho humilhado na Cruz.

11. Celebremos, pois, a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, no Mistério da Ceia, fazendo-nos comensais do sagrado alimento que nos torna o Corpo Eclesial do Senhor. Nossa missão é fazer de nossa vida uma total oblação que seja agradável aos olhos do Pai. Conscientes de que o Mistério da Ceia consiste na autodoação amorosa do Cristo pela salvação da humanidade, com Ele sejamos uma “Oferta Viva” na mesa da eucaristia, bem como no meio do mundo. Dando graças ao Pai e guiados pelo Espírito Santo, como Jesus, tenhamos a coragem ousada de entregar a nossa vida nas mãos do Pai por causa do Reino!

Para entender e viver o Tríduo Pascal

Pe. José Adalberto Salvini

           

Por meio de sua morte e ressurreição Jesus Cristo realizou uma vez por todas o misterioso desígnio de Deus Pai e cumpriu a promessa de salvação em favor da humanidade decaída pelo pecado. A este maravilhoso evento de salvação chamamos “Mistério Pascal” e o celebramos de modo particular na Semana Santa, que tem seu ponto alto no “Tríduo Pascal”.

Uma dúvida que sempre surge é o fato de que o “tríduo” (três dias) é celebrado em “quatro dias”. Como entender isso? Há quem se pergunte também: por que celebrar a mesma coisa todos os anos? Que sentido tem isso tudo? Tentemos entender!

Bem no começo da Igreja os primeiros cristãos se reuniam para fazer memória da ressurreição de Jesus Cristo em cada domingo do ano, como acontece até hoje. Mas não tardou a que se sentisse necessidade de comemorar de um modo especial o grande evento de nossa salvação. Por isso, foram “surgindo” celebrações que se desdobraram em mais dias, lembrando os “momentos centrais” da paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, se estruturaram celebrações especiais que hoje integram o que chamamos de “tríduo pascal”, bem como outras celebrações, tendo em vistas, além da memória dos mistérios de Cristo, também a iniciação sacramental dos que desejam ser cristãos e a reconciliação dos cristãos que, após o batismo, se deixaram levar pelo pecado. Tudo isso se formou ao longo de vários anos sucessivos até chegar à estrutura atual do nosso “ciclo pascal” (quaresma, tríduo e tempo pascal).

O Tríduo Pascal se inicia com a celebração da Ceia do Senhor (pôr do sol da quinta-feira santa) e se conclui com a celebração eucarística do domingo da Ressurreição do Senhor. É um só mistério que se celebra em três momentos principais distintos e, ao mesmo tempo, indissoluvelmente unidos.

O primeiro momento nós o chamamos de PÁSCOA DA CEIA E DA CRUZ e consiste na celebração memorial da última ceia, na qual Cristo antecipou a doação amorosa de sua vida pela salvação do mundo, servindo-se dos sinais do pão e do vinho e da atitude de lavar os pés dos seus discípulos (instituição dos sacramentos da Eucaristia e da Ordem), entrega esta que, de fato, se efetiva com a sua morte violenta na cruz, no alto do Calvário. Assim sendo, vemos que as celebrações de quinta e de sexta-feira santa, embora separadas, formam um único bloco que expressa o mistério da “entrega de Cristo pela nossa salvação”. Em verdade, na última ceia se antecipa o que de fato acontece na Cruz.

Ao segundo momento chamamos de PÁSCOA DO SEPULCRO. É Jesus que passa pela morte e desce à mansão dos mortos. Este momento se inicia simbolicamente pelo desnudamento do altar e o sacrário vazio após a celebração da paixão do Senhor na sexta-feira santa e vai até o ínicio da Vigília Pascal, no sábado Santo. A rigor, é tempo para o recolhimento e para um profundo silêncio que nos leve a esperar o dia da ressurreição. Recomenda-se que este dia o passemos em jejum e oração silenciosa, porque “o noivo nos foi tirado” (Lc 5,34-35). É o único dia em que se proibe a celebração da missa e não se celebram os sacramentos, a não ser em extremo perigo de morte (apenas o batismo de emergência, a penitência e a unção dos enfermos). O sábado santo é especialmente reservado para as celebrações de preparação imediata dos catecúmenos à iniciação cristã na vigília pascal.

Ao terceiro momento chamamos de PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO. É o ponto alto de todo o tríduo pascal que acontece com a vigília solene, chamada por Santo Agostinho de “mãe de todas as vigílias”. Nela rememoramos e celebramos as manifestações de Deus ao longo da história da salvação. Estas manifestações têm o seu início na criação do mundo (1ª leitura), percorrem a história da caminhada do Povo de Deus até atingir o foco central na ressurreição do Senhor, sinal da vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. Nesta noite os catecúmenos são iniciados à vida cristã pela celebração dos sacramentos da fé, ou seja, o batismo, a confirmação e a participação no banquete eucarístico. Ao mesmo tempo, nós, os cristãos, renovamos os nossos compromissos batismais de fidelidade a Deus até que cheguemos à gloria eterna com a qual Cristo Senhor nos brindou com sua morte e ressureição. Este é o dia que o Senhor fez para nós, dia de festa e de alegria! (Sl 117); é o domingo, ou seja, o dia do Senhor!

A celebração da vigília já é verdadeiramente a celebração da páscoa. Desta forma, pela prescrição litúrgica ela não pode começar antes do pôr do sol do sábado santo e não deve terminar antes do nascer do sol da manhã da ressurreição. Despertos e atentos, nesta noite especial contemplamos o mistério da “passagem” (Páscoa!) da morte à vida em plenitude que só Deus nos pode conceder no dom do Espírito que o seu Filho Unigênito “entregou ao mundo” (Jo 19,30b). Outras celebrações se prolongam no domingo de páscoa e ecoam solenemente nos dias seguintes, chamados “oitava da páscoa” ou semana “in albis”, ou seja, dos que se vestem “de branco” para participar das celebrações, porque “alvejaram suas vestes no Sangue do Cordeiro que foi por nós imolado” (Ap 7,14). Este eco da ressurreição se prolonga por todo o tempo pascal até que em Pentecostes (cinquenta dias depois) celebramos o especial Dom do Espírito Santo.

“Revestido do alto” (Lc 24,49), todo cristão se torna Igreja viva para manifestar ao mundo e prolongar na história o testemunho do Senhor Ressuscitado e das maravilhas da salvação. Por isso, somos “discípulos e missionários”, comprometidos com o Reino de Deus já presente na história da humanidade e que, pouco a pouco, vai se manifestando nas vitórias que o Povo de Deus conquista, até que Jesus retorne glorioso (At 1,11) e a vida se manifeste em sua plenitude (2Cor 4,11; 1Jo 3,2).

Enquanto isso, é nosso dever e salvação dar graças ao Pai, por Cristo, no Espírito e assim o louvamos e bendizemos celebrando com intenso jubilo a “Páscoa anual” até que celebremos a “derradeira Páscoa” de nossa existência humana. Participemos, pois, dos santos mistérios e celebremos o imenso dom de nossa salvação “erguendo o cálice da bênção e invocando o nome santo do Senhor” (Sl 115,13).

 

(Para aprofundamento do tema, leia: Roteiros homiléticos da Semana Santa e Tempo Pascal Ano C – 2007, p.7-16 – PNE Queremos Ver Jesus).

Publicado em: O ASCENSOR (Boletin informativo da Diocese de Jaboticabal): ano 68, n. 1875, p.05, abril 2007.

ASPERSÃO:

NO TEMPO DA QUARESMA OU DA PÁSCOA?

 

Jacques Trudel, sj

 

Várias comunidades do Brasil costumam realizar nos domingos da Quaresma o rito da aspersão com água benta, substituindo o ato penitencial,. O Missal Romano prevê esta possibilidade “em todas as missas dominicais”, portanto, também nas da Quaresma. Mas eu gostaria de sugerir que seria mais de acordo com a dimensão batismal da Quaresma, como preparação para a Vigília Pascal, reservar a aspersão para os domingos do Tempo Pascal,  quando é explicitamente recomendada. Vejamos.

 

É importante notar que Quaresma e Tempo Pascal formam juntos o Ciclo Pascal, articulado em torno da Vigília Pascal - cume do Tríduo Pascal - como que ponto de chegada e ponto de partida. É a celebração anual do Mistério Pascal, da Páscoa de Jesus, sua Morte e Ressurreição por nós e a nossa participação nela. De um lado, a Quaresma é o tempo de preparação: um percurso espiritual progressivo de 40 dias que nos leva à celebração da Páscoa “na noite santa em que Jesus ressuscitou”. De outro lado, os 50 dias do Tempo Pascal são vividos como prolongamento da Páscoa, como “um só dia de festa”, diziam os antigos, do Domingo de Páscoa até Pentecostes, o quinquagésimo dia.

 

A 3ª parte da Vigília Pascal é a Liturgia Batismal, na qual temos a bênção da água para o Batismo de novos discípulos de Jesus e a solene aspersão da comunidade em memória do seu Batismo. Nesta noite, ouvimos Paulo afirmar que  todos fomos batizados na morte de Jesus Cristo para viver da vida nova com Cristo ressuscitado (cf. Rm. 6, 3-11). Diz a oração: “Que esta água seja para nós uma recordação do nosso Batismo e nos faça participar da alegria dos que foram batizados na Páscoa”.

 

Por isso, todo o itinerário de preparação da Quaresma tem uma dimensão batismal em vista da  Vigília Pascal. Cito o missal: “O tempo da Quaresma visa preparar a celebração da Páscoa; a liturgia quaresmal, com efeito, dispõe para a celebração do mistério pascal tanto os catecúmenos, pelos diversos graus de iniciação cristã, como os fiéis, pela comemoração do batismo e pela penitência.” (MISSAL ROMANO, p. 105: Normas universais sobre o ano litúrgico e o calendário n. 27).

 

No processo da iniciação à vida cristã de não-batizados, procura-se favorecer a experiência do encontro pessoal com Jesus Cristo (Aparecida 286-294). Os domingos da Quaresma são a última etapa de preparação para o Batismo, na Vigília Pascal. É um tempo de purificação e iluminação; os ritos e orações especiais, de domingo em domingo (escrutínios) têm como finalidade aprofundar o seu DESEJO de salvação. Os Evangelhos da Quaresma do Ano ‘A’, (mais apropriados para a iniciação e que podem ser retomados nos outros anos, quando há Batismo) apresentam Cristo como “Água viva que sacia a sede” (3º domingo - a Samaritana); “Luz que faz enxergar” (4º domingo - Cego de nascença); “Ressurreição e vida” (5º domingo -Ressurreição de Lázaro). No domingo da Samaritana, uma das intenções  previstas reza : «Para que, à espera do dom de Deus, cresça neles o desejo da água viva que jorra para a vida eterna, roguemos. » (Ritual da Iniciação Cristão dos Adultos, no. 163).

 

A dimensão batismal da Quaresma, portanto, orienta para a Vigília Pascal. Aspergir com água - “em recordação do Batismo” - catecúmenos ainda não-batizados parece uma contradição. A menção da água na Quaresma visa aprofundar o desejo das águas vivas batismais que hão de brotar em abundância na Noite Santa. Nas comunidades onde não há Batismo na Vigília Pascal, o ato mais importante da Liturgia da Água deve ser a aspersão da água benta como recordação do Batismo. Ora, que destaque ou “novidade” terá, na Vigília, esta aspersão para a experiência espiritual da comunidade se ela já foi realizada na Quaresma?

 

            Durante o tempo da Quaresma, em lugar da aspersão, podemos dar maior ênfase ao rito penitencial. Em consonância com as leituras deste ano B, talvez olhar para a cruz onde Jesus assume as vítimas de violência, nos convidando a fazer o mesmo como gesto de fraternidade. Nada impediria cantar “Derramarei sobre vós uma água pura”(CF 2009, faixa 3) omitindo a aspersão e, deste modo, aprofundar o desejo de um “coração puro” nas águas do Batismo para o perdão do pecado ou

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Qual o sentido teológico-litúrgico-espiritual do rito da aspersão?

2.         Na sua comunidade, haverá Batismo de jovens/ adultos na noite da Páscoa? Eles participam das liturgias dominicais da Quaresma? Como são ajudados?

3.         Como podemos, durante a Quaresma, valorizar mais o rito penitencial, para ajudar a comunidade a se preparar para a festa da Páscoa?

 

 

 

Quaresma,

Celebrando nossa conversão.

 

Pe. Kleber Rodrigues da Silva

 

Chegamos na Quaresma, ‘sinal da nossa conversão’. A cor roxa e a moderação se evidenciam nos ambientes celebrativos; os cantos penitenciais antigos e novos ecoam em nossos corações, os textos bíblicos próprios, a penitência, o jejum, a oração e a solidariedade são assumidos por todos. A Campanha da Fraternidade, neste ano de 2009, expõe a problemática da Segurança Púbica e nos propõe como exercício quaresmal a busca da Paz como fruto da justiça.

Quero destacar, neste pequeno texto, os evangelhos de cada domingo, que oferecem verdadeiro itinerário de aprofundamento da fé e do nosso compromisso no seguimento de Jesus a serviço do seu Reino. 

No primeiro domingo (Marcos 1,12-15), conduzidos pelo Espírito vamos com Jesus ao deserto, tomamos consciência das lutas e provações que fazem parte do nosso caminho como Igreja e aprendemos com Ele a conviver com as feras e os anjos. Ele próprio, vencendo o diabo (o que divide) é o sinal da nossa vitória contra “o fermento da maldade”. (cf. Prefácio do 1º Domingo da Quaresma).

No segundo domingo, ouvimos o relato da Transfiguração (Marcos 9,2-10). Contemplamos antecipadamente o Mistério da Ressurreição, que resplandece na luz do transfigurado. “Tendo predito aos discípulos a própria morte, Jesus lhes mostra, na montanha sagrada, todo o seu esplendor. E com o testemunho da Lei e dos Profetas, simbolizados em Moisés e Elias, nos ensina que, pela Paixão e Cruz, chegará à glória da ressurreição” (Prefácio 2º. Domingo da Quaresma).

No terceiro domingo, acolhemos a Boa Nova no episódio em que Jesus expulsa do templo os vendilhões e anuncia a construção de um novo templo (Jô 2,13-25). A quaresma tem nos ajudado na edificação do templo espiritual que somos nós? Somos o novo templo, mas precisamos purificar-nos continuamente de tudo aquilo que não nos deixa oferecer sacrifícios agradáveis ao Senhor.

O 4º Domingo é chamado “o domingo da Alegria” (João 3,14-21).  Com Nicodemos, aprendemos de Cristo que só se salva quem tem a coragem de dar a sua vida. A Palavra proclamada lembra os males da infidelidade e mostra que seguir os caminhos do Senhor traz paz, segurança e salvação.  Vale sempre lembrar que o ponto de partida para a compreensão da Quaresma deve ser o Mistério Pascal. A Quaresma não tem um fim em si mesma, mas aponta para o horizonte da Páscoa.

No 5º Domingo lembramos que o caminho do/a discípulo/a de Jesus passa pela cruz (João 12,20-33). A penitência destes 40 dias retoma esta dimensão do discipulado. O colocar-se por inteiro a serviço do reino como Jesus, implica necessariamente na entrega da vida, na capacidade de suportar sofrimentos e de relevar contratempos. A própria experiência de passar pelo vale da morte, tem em si uma força transformadora, à medida que nos liberta de toda ilusão e pretensão para “a verdadeira liberdade para a qual Cristo nos libertou”.

Portanto, este caminho quaresmal, é um tempo favorável, uma oportunidade especial de oferecimento pascal de nossas vidas, e de deixar santificar pelo Espírito que faz novas todas as coisas. A Igreja, Povo de Deus, é convocada a viver esta experiência pascal, a deixar-se purificar e santificar pelo seu Senhor.  “Eis o tempo de conversão! Eis o dia da salvação! Ao Pai voltemos! Juntos andemos!”

Um bom itinerário quaresmal a todos.

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Como você vive o tempo da Quaresma?

2.         Como podemos valorizar mais a Palavra de Deus durante o tempo da Quaresma?

3.         Como podemos integrar a Campanha da Fraternidade na vivência do tempo quaresmal?

 

 

 

 

 

 

O altar no centro das atenções

 

Ione Buyst

           

Ao entrarmos numa igreja, para onde se voltam nosso olhar e nossa atenção? Algumas pessoas se dirigem imediatamente à imagem de seu santo de devoção, ou fazem a volta de todos os altares dedicados aos santos. Outras pessoas vão direto ao lugar onde se encontra o sacrário, ajoelham-se aí e rezam.

            E o altar? O que significa para nós? Qual a atenção que lhe dedicamos? Que sentimentos desperta em nós? A Instrução Geral ao Missal Romano (IGMR), no n. 229, diz assim: “O altar ocupe um lugar que seja de fato o centro para onde espontaneamente se volte a atenção de toda a assembléia dos fiéis.” E o n. 303 pede que nas novas igrejas a serem construídas, haja “um só altar que, na assembléia dos fiéis, signifique um só Cristo e uma só Eucaristia da Igreja.” E o n. 298 lembra que o altar fixo (que é preferível ao altar móvel), “significa de modo mais claro e permanente Jesus Cristo, Pedra viva (1 Pd 2, 4; cf. Ef 2, 20)”. O altar é também a “mesa do Senhor, que é o centro de toda a liturgia eucarística” (IGMR, 73). Por isso, ao entrarmos na igreja devemos nos habituar a voltar nosso olhar e nossa atenção, antes de tudo, para o altar e saudá-lo com uma inclinação do corpo ou da cabeça, em atitude de respeito, cheio de devoção e de terno amor para com Jesus Cristo, Pedra viva que sustenta a comunidade cristã.

            Evidentemente, esta centralidade do altar deve ser levada em conta também durante as celebrações litúrgicas. Observemos o início de uma celebração, de domingo, por exemplo: “Chegando ao presbitério, o sacerdote, o diácono e os ministros saúdam o altar com uma inclinação profunda. Em seguida, em sinal de veneração o sacerdote e o diácono beijam o altar e, se for oportuno, o sacerdote incensa a cruz e o altar. (IGMR 49). Esta inclinação profunda, este beijo, esta incensação não são mera etiqueta, cerimônia ou enfeite para embelezar a celebração, não. São expressão de nosso amor a Jesus Cristo e do fato de termos construído nossa vida nele, como num alicerce. Uma equipe de ministros que, durante o canto de entrada, avança do fundo da igreja em direção ao altar, tendo o olhar, a atenção e o coração voltados para Cristo, representado pelo altar, ajudará toda a assembléia a se constituir e se con-centrar na pessoa de Jesus.

            Mas, o que pensar de uma equipe de ministros que, em vez de saudar o altar, se posiciona de costas para o mesmo e faz uma inclinação perante a parede do fundo, onde se encontra um crucifixo ou uma pintura de Cristo Ressuscitado, ou uma imagem do padroeiro ou padroeira? Provavelmente, ainda não perceberam que o altar ‘é mais’! Antigamente, antes do Concílio Vaticano II, o altar estava encostado na parede, geralmente no meio de um monumental ‘retábulo’, que comportava também o sacrário e imagens de santos, principalmente da padroeira. O altar como que se confundia com este conjunto todo e não era mais reconhecido como mesa do Senhor. E quando se fazia uma reverência no início e no final da celebração, não se tinha muita consciência se era para o altar ou para o sacrário ou para as imagens... Com a renovação conciliar a Igreja resgatou sua tradição primordial. Agora, o altar é de novo tratado como um sinal sacramental. Antes de ser usado para a celebração, o altar é ‘dedicado’ com uma solene oração, é ungido, nele se queima incenso, é revestido com a toalha e beijado pela primeira vez.

            A saudação dos ministros no início e no final da celebração deve ser feita, pois, para o altar e não para o crucifixo ou outras representações na parede do fundo. Caso haja no presbitério também um sacrário, os ministros farão uma genuflexão no início e no final da celebração, mas jamais de costas para o altar. O mesmo vale para a saudação no início e no final de um oficio divino e também para as prostrações durante a ladainha de todos os santos em certas celebrações como ordenações ou profissões religiosas: devem ser feitas com todas as pessoas voltadas para o altar e não para a parede atrás dele!

            Se o altar é tão importante, como centro da assembléia reunida, devemos evitar de colocar a cadeira da presidência e os assentos dos acólitos na frente do altar, de modo que fiquem de costas para o altar[2] e impedem que este esteja no centro das atenções.

 

 

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.      Você já fez a experiência de entrar na sua igreja e “contemplar” o altar?

2.      Por que o altar é o “lugar central” de uma igreja?

3.      Qual o sentido teológico-espiritual das reverências ao altar (inclinação e beijo)?

4.      Como está localizado e ornamentado o altar de nossa comunidade?  Ajuda a perceber a sua centralidade? 

 



[1] Artigo publicado na Revista de Liturgia, n. 199,  janeiro-fevereiro 2007, p. 28.

[2] Também devem ser evitados vasos de flores e outros objetos, que possam dificultar a circulação ao seu redor.

 

Assembléia em Paulo Apóstolo

 

Frei Faustino Paludo

 

A leitura atenta dos escritos de Paulo Apóstolo nos dá a impressão de estar tomando parte de uma assembléia litúrgica. As cartas paulinas eram dirigidas às comunidades (menos Filemon). Observemos como Paulo inicia suas cartas: "A todos os diletos de Deus que estão em Roma" (Rm 1,7). "À Igreja  de Deus que está em Corinto" (1Cor 1,2; 2Cor 1,1). "Às Igrejas da Galácia" (Gl 1,2), etc. Certamente que a leitura era feita na reunião da comunidade a que Paulo se dirigia. Talvez o escrito que melhor explique isto seja a 1ª Carta aos Coríntios. Nela o Apóstolo chama a atenção para as divisões (cap. 1-4) e os abusos nas assembléias (cap. 11-14). Naquele tempo, a melhor maneira de divulgar um escrito era aproveitar a reunião da comunidade, onde os servidores liam para os presentes as Cartas do Apóstolo. A assembléia se constituía no elemento animador e articulador das diferentes dimensões da vida da comunidade cristã.

Para compreendermos o sentido que o apóstolo São Paulo dá à assembléia litúrgica, necessitamos recorrer à palavra “Igreja”. O termo vem da palavra grega “ekklesia” e significa: “assembléia do povo convocada pela Palavra de Deus”. Nos tempos apostólicos, assembléia evocava a reunião dos que crêem em Jesus Cristo, o Ressuscitado.  É a reunião do povo da nova aliança, em continuidade com as assembléias do antigo povo (cf. Dt 4,4.10; Ex 19-24; Js 24; Ne 8-9).

Paulo vê nas assembléias dos convertidos à Boa Nova de Jesus, uma extensão das assembléias do antigo Israel. Todavia, despojadas dos elementos característicos da liturgia do antigo Templo. Os convertidos compartilham da ceia do Senhor, reúnem-se freqüentemente no amanhecer do 1º dia da semana para a oração e a escuta da palavra. Não tinham Templo, nem sacerdotes e nem sacrifícios.

Ainda em Paulo, a palavra “igreja” (ekklesia) refere-se à comunidade reunida em assembléia num determinado lugar, numa casa (cf. Rm 16,5) numa cidade ou numa região. Inúmeras vezes o Apóstolo se refere à comunidade local. “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo por vontade e chamado de Deus, à igreja de Deus que está em Corinto” (cf. 1Cor 1,1-2; 2Cor 1,1); reunida em assembléia (1Cor 11,18); “às Igrejas da Galácia” (Gl 1,2).  Outras vezes, Apóstolo dirige-se à Igreja no seu sentido mais amplo. “A eles não somente eu sou grato, mas também todas as igrejas dos pagãos” (Rm 16,4). Paulo pensa e se relaciona com a Igreja como assembléia reunida num determinado lugar em nome do Senhor. Fala da “igreja na casa de Priscila e Áquila, de Ninfa e de Filemon (cf. Rm 16,5. 23; 1Cor 16,19; Cl 4,15; Fm 2). É tardia a compreensão de uma Igreja no sentido universal (cf.  Cl 1,18.24; Ef 1,22; 3,10.21; 5,23-25.27.29.32).

Paulo acresce à palavra “Igreja” o complemento “de Deus”. (cf. ‘Cor 10,32; 11,32; 12,28; 15,9; 1Tm 3,5. 15). A assembléia como Igreja reunida é fruto da convocação da Palavra de Deus. Ele a convoca e por isso ela é comunhão. A unidade de Deus gera a comunhão da Igreja presente em todos os lugares onde se encontra. O Apóstolo revela que as assembléias são manifestações do Senhor. Assim vemos que a “Igreja de Deus” não é tanto a soma de todas as assembléias locais, mas estas são realizações da única Igreja de Deus.  Em Cristo, pedra principal, todos os membros da assembléia são integrados, para se tornar morada de Deus, povo de Deus, por meio do Espírito (Ef 2,22). A assembléia é uma realidade aberta e acolhedora, na qual não há distinção de pessoas (cf. Rm 10,12; Gl 3,28). Na “casa de Deus” (1Tm 3,15) ou no “templo de Deus” (1Cor 3,9.16), todos são chamados  a fazer parte do único povo de Deus, na “Igreja de Deus”, em Jesus Cristo.

A assembléia é vista como “corpo de Cristo” (Rm 12,5; 1Cor 6,15). Paulo usa a imagem do corpo vivo para sublinhar as relações interativas da assembléia. Esta não é um aglomerado de indivíduos anônimos e impessoais, mas uma comunidade organizada segundo uma hierarquia de serviço e caridade (Ef 4,11-16). Expressão vital da unidade e da diversidade de seus membros, dos dons e ministérios (cf.  Rm 12, 3-8; 1Cor 12, 12s;14,1s). O que dá identidade à assembléia cristã como “corpo” é sua união vital com Cristo, expressa pelo batismo e alimentada pela eucaristia. Povo que vive da Palavra e do Pão partilhado transforma-se em Corpo de Cristo (cf.  1Cor 12,27).

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         Como o Apóstolo Paulo define a assembléia cristã?

2.         Em que as assembléias da nova aliança diferem das assembléias da antiga aliança?

3.         Paulo fala da Igreja, da assembléia usando imagens. Você poderia indicar algumas dessas imagens? 

4.         Por que o Apóstolo ao referir-se a uma determinada comunidade a chama de “Igreja de Deus”?

5.         O que significa, na perspectiva do pensamento de Paulo, que a assembléia “é um corpo vivo?” 

Paixão, morte e ressurreição de Jesus no mistério da ceia

Pe. José Adalberto Salvini,

Assessor Diocesano para a Pastoral Litúrgica da Diocese de Jaboticabal.

 

“Na Última Ceia, na noite em que foi entregue, nosso Salvador instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e Sangue. Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz, confiando destarte à Igreja, sua dileta Esposa, o memorial de sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vinculo de caridade, banquete pascal, em que Cristo nos é comunicado como aliemento, o espírito é repleto de graças e nos é dado o penhor da futura glória” (SC 47).

 

1. Sabemos que a Última Ceia de Jesus com seus Apóstolos foi um fato de suma importância na História da Salvação. No entanto, muitos são os que ainda desconhecem o sentido profundo dos gestos de Jesus nesta refeição sagrada e suas implicações para a vida dos que hoje comungam de seu Corpo e Sangue. Neste breve artigo o nosso objetivo será olhar o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus a partir do mistério da ceia, com vistas a discernirmos as implicações ético-pastorais na vida dos que hoje se reúnem como comensais ao redor da mesa eucarística.

2. Para início de conversa, a última ceia de Jesus com seus amigos foi narrada pelos autores da Sagrada Escritura de dois modos: em primeiro lugar, os textos sinóticos (Mt 26,26-29; Mc 14,22-25 e Lc 22,15-20) e também a epístola de São Paulo (1Cor 11,23-26) que acentuam os gestos de Jesus com o pão e o vinho; em segundo lugar, temos o testemunho do evangelho de São João (Jo 13,1-17), que nos relata a atitude de Jesus que lava os pés dos seus amigos e lhes dá o novo mandamento do amor. Ambos os modos nos situam no contexto de uma refeição em comum, ou seja, a páscoa anual na qual os judeus celebram o memorial da libertação da escravidão que os seus antepassados sofreram no Egito e agradecem o fato de o Senhor os ter conduzido sãos e salvos à terra prometida, agindo com mão forte e braço poderoso ao derrotar o inimigo opressor por ocasião da passagem pelas águas do Mar Vermelho.

3. Em todos estes textos sagrados fica claro que os momentos antecedentes à paixão, morte e ressurreição de Jesus foram precedidos por uma última ceia de despedida com os seus amigos mais íntimos. Nela, Jesus antecipou através de gestos rituais a realidade de sua própria vida como uma entrega livre e generosa, reveladora de que a sua missão consistia em cumprir fielmente a vontade do Pai até as últimas conseqüências, mesmo que isto lhe custasse o preço da morte violenta numa Cruz.

4. O pão e o vinho oferecidos em comida ou o gesto do lava-pés tornaram-se sinais de uma realidade maior, ou seja, da própria autodoação de Cristo em favor da salvação do mundo e do compromisso de continuidade da sua missão por parte dos amigos que fazem a refeição com ele em todos os tempos.

5. Na ceia pascal judaica é costume bendizer ao Senhor tomando o alimento sagrado e lembrando a sua fidelidade e seu amor sempre fiéis. Outro elemento presente na refeição de louvor judaica é a esperança sempre renovada de um povo que aguarda confiante a manifestação definitiva de sua libertação. Por isso, durante a ceia sempre se proclama a certeza de que o Messias Senhor virá em breve. Foi exatamente ao tomar o pão e o vinho e bendizer ao Pai que Jesus interpretou de uma forma nova o antigo ritual de seu povo e revelou-se como sendo o próprio Messias esperado. Na partilha dos alimentos sagrados (pão e vinho) Jesus significou a sua entrega antecipando simbolicamente a realidade a ser experimentada e concretizada no mistério de sua paixão e morte de Cruz. O gesto do lava-pés teve o mesmo sentido de entrega serviçal de sua vida em favor de todos. Por meio deste serviço Ele realiza de uma vez por todas a libertação (salvação) não só de seu povo, mas de toda a humanidade. No desfecho de ambas atitudes – entrega dos alimentos e do lava-pé – Jesus deu aos seus a seguinte ordem: Fazei isto em memória de mim! Ora, é preciso que compreendamos o que Jesus fez, a fim de que possamos dar-lhe uma resposta amorosa e comprometida.

7. Fica evidente que a ordem de Jesus durante a ceia da despedida se refere não apenas em reproduzir um rito, mas em reproduzir a sua atitude de entrega, a autodoação livre e generosa em favor do Reino, em cumprimento perfeito da vontade do Pai. O novo mandamento do amor é o grande mistério que se revela na Ceia. Deus mesmo, na pessoa de seu Filho Amado, abaixou-se (kenosis) para servir o mundo e dar-lhe a plena liberdade. Cristo revelou este amor do Pai a ponto de assumir a Cruz tornando-se Corpo dado e Sangue derramado em favor de todos. Eis a razão pela qual não ficou humilhado no suplício da Cruz, mas foi exaltado e recebeu do Pai o nome que está acima de todo nome (Fl 2,7-11).

8. Cada vez que nós, cristãos, nos reunimos para celebrar a eucaristia, memorial da paixão, morte e ressureição do Senhor, nos colocamos na mesma dinâmica de vida assumida por Cristo e nos comprometemos a continuar o seu “serviço” em favor do mundo. Fazer o que Ele fez significa estar disposto a dar a própria vida pela humanização plena do homem e da mulher, ou seja, pela sua santificação. Todos os comungantes do Corpo e do Sangue de Cristo unem-se a Ele na força dinamizadora do Espírito Santificador e como um único Corpo Eclesial se tornam sacramento da presença de Jesus no mundo e se fazem os adoradores que o Pai procura (Jo 4,23).

9. O Mistério da Ceia nos faz contemplar o Messias que o povo de Israel tanto esperou. Faz-nos contemplar Aquele que nos amou até o fim e se ofereceu no altar da Cruz como Vítima Inocente (Cordeiro) capaz de tirar o pecado do mundo, o nosso pecado. Nele e por Ele temos a vida em plenitude já neste mundo, enquanto aguardamos pressurosos sua vinda gloriosa (Oração Eucarística sobre Reconciliação I).

10. Comer e beber com Ele é assumir o Plano que o Pai nos confia. Se hoje comungamos o Corpo e Sangue do Senhor, este gesto significa a nossa própria adesão e compromisso com a transformação do mundo presente, tão marcado pela cultura de morte. A mesma força que motivou Jesus a enfrentar a Cruz é a que hoje nos impulsiona a tomar a nossa Cruz de cada dia, e a dar os passos que nos levam pelo calvário da vida à certeza de que se o mundo nos crucifica é o Pai quem nos glorifica, tal e qual glorificou a seu Filho humilhado na Cruz.

11. Celebremos, pois, a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, no Mistério da Ceia, fazendo-nos comensais do sagrado alimento que nos torna o Corpo Eclesial do Senhor. Nossa missão é fazer de nossa vida uma total oblação que seja agradável aos olhos do Pai. Conscientes de que o Mistério da Ceia consiste na autodoação amorosa do Cristo pela salvação da humanidade, com Ele sejamos uma “Oferta Viva” na mesa da eucaristia, bem como no meio do mundo. Dando graças ao Pai e guiados pelo Espírito Santo, como Jesus, tenhamos a coragem ousada de entregar a nossa vida nas mãos do Pai por causa do Reino!

Para entender e viver o Tríduo Pascal

Pe. José Adalberto Salvini

           

Por meio de sua morte e ressurreição Jesus Cristo realizou uma vez por todas o misterioso desígnio de Deus Pai e cumpriu a promessa de salvação em favor da humanidade decaída pelo pecado. A este maravilhoso evento de salvação chamamos “Mistério Pascal” e o celebramos de modo particular na Semana Santa, que tem seu ponto alto no “Tríduo Pascal”.

Uma dúvida que sempre surge é o fato de que o “tríduo” (três dias) é celebrado em “quatro dias”. Como entender isso? Há quem se pergunte também: por que celebrar a mesma coisa todos os anos? Que sentido tem isso tudo? Tentemos entender!

Bem no começo da Igreja os primeiros cristãos se reuniam para fazer memória da ressurreição de Jesus Cristo em cada domingo do ano, como acontece até hoje. Mas não tardou a que se sentisse necessidade de comemorar de um modo especial o grande evento de nossa salvação. Por isso, foram “surgindo” celebrações que se desdobraram em mais dias, lembrando os “momentos centrais” da paixão, morte e ressurreição do Senhor Jesus. Assim, se estruturaram celebrações especiais que hoje integram o que chamamos de “tríduo pascal”, bem como outras celebrações, tendo em vistas, além da memória dos mistérios de Cristo, também a iniciação sacramental dos que desejam ser cristãos e a reconciliação dos cristãos que, após o batismo, se deixaram levar pelo pecado. Tudo isso se formou ao longo de vários anos sucessivos até chegar à estrutura atual do nosso “ciclo pascal” (quaresma, tríduo e tempo pascal).

O Tríduo Pascal se inicia com a celebração da Ceia do Senhor (pôr do sol da quinta-feira santa) e se conclui com a celebração eucarística do domingo da Ressurreição do Senhor. É um só mistério que se celebra em três momentos principais distintos e, ao mesmo tempo, indissoluvelmente unidos.

O primeiro momento nós o chamamos de PÁSCOA DA CEIA E DA CRUZ e consiste na celebração memorial da última ceia, na qual Cristo antecipou a doação amorosa de sua vida pela salvação do mundo, servindo-se dos sinais do pão e do vinho e da atitude de lavar os pés dos seus discípulos (instituição dos sacramentos da Eucaristia e da Ordem), entrega esta que, de fato, se efetiva com a sua morte violenta na cruz, no alto do Calvário. Assim sendo, vemos que as celebrações de quinta e de sexta-feira santa, embora separadas, formam um único bloco que expressa o mistério da “entrega de Cristo pela nossa salvação”. Em verdade, na última ceia se antecipa o que de fato acontece na Cruz.

Ao segundo momento chamamos de PÁSCOA DO SEPULCRO. É Jesus que passa pela morte e desce à mansão dos mortos. Este momento se inicia simbolicamente pelo desnudamento do altar e o sacrário vazio após a celebração da paixão do Senhor na sexta-feira santa e vai até o ínicio da Vigília Pascal, no sábado Santo. A rigor, é tempo para o recolhimento e para um profundo silêncio que nos leve a esperar o dia da ressurreição. Recomenda-se que este dia o passemos em jejum e oração silenciosa, porque “o noivo nos foi tirado” (Lc 5,34-35). É o único dia em que se proibe a celebração da missa e não se celebram os sacramentos, a não ser em extremo perigo de morte (apenas o batismo de emergência, a penitência e a unção dos enfermos). O sábado santo é especialmente reservado para as celebrações de preparação imediata dos catecúmenos à iniciação cristã na vigília pascal.

Ao terceiro momento chamamos de PÁSCOA DA RESSURREIÇÃO. É o ponto alto de todo o tríduo pascal que acontece com a vigília solene, chamada por Santo Agostinho de “mãe de todas as vigílias”. Nela rememoramos e celebramos as manifestações de Deus ao longo da história da salvação. Estas manifestações têm o seu início na criação do mundo (1ª leitura), percorrem a história da caminhada do Povo de Deus até atingir o foco central na ressurreição do Senhor, sinal da vitória de Jesus sobre o pecado e a morte. Nesta noite os catecúmenos são iniciados à vida cristã pela celebração dos sacramentos da fé, ou seja, o batismo, a confirmação e a participação no banquete eucarístico. Ao mesmo tempo, nós, os cristãos, renovamos os nossos compromissos batismais de fidelidade a Deus até que cheguemos à gloria eterna com a qual Cristo Senhor nos brindou com sua morte e ressureição. Este é o dia que o Senhor fez para nós, dia de festa e de alegria! (Sl 117); é o domingo, ou seja, o dia do Senhor!

A celebração da vigília já é verdadeiramente a celebração da páscoa. Desta forma, pela prescrição litúrgica ela não pode começar antes do pôr do sol do sábado santo e não deve terminar antes do nascer do sol da manhã da ressurreição. Despertos e atentos, nesta noite especial contemplamos o mistério da “passagem” (Páscoa!) da morte à vida em plenitude que só Deus nos pode conceder no dom do Espírito que o seu Filho Unigênito “entregou ao mundo” (Jo 19,30b). Outras celebrações se prolongam no domingo de páscoa e ecoam solenemente nos dias seguintes, chamados “oitava da páscoa” ou semana “in albis”, ou seja, dos que se vestem “de branco” para participar das celebrações, porque “alvejaram suas vestes no Sangue do Cordeiro que foi por nós imolado” (Ap 7,14). Este eco da ressurreição se prolonga por todo o tempo pascal até que em Pentecostes (cinquenta dias depois) celebramos o especial Dom do Espírito Santo.

“Revestido do alto” (Lc 24,49), todo cristão se torna Igreja viva para manifestar ao mundo e prolongar na história o testemunho do Senhor Ressuscitado e das maravilhas da salvação. Por isso, somos “discípulos e missionários”, comprometidos com o Reino de Deus já presente na história da humanidade e que, pouco a pouco, vai se manifestando nas vitórias que o Povo de Deus conquista, até que Jesus retorne glorioso (At 1,11) e a vida se manifeste em sua plenitude (2Cor 4,11; 1Jo 3,2).

Enquanto isso, é nosso dever e salvação dar graças ao Pai, por Cristo, no Espírito e assim o louvamos e bendizemos celebrando com intenso jubilo a “Páscoa anual” até que celebremos a “derradeira Páscoa” de nossa existência humana. Participemos, pois, dos santos mistérios e celebremos o imenso dom de nossa salvação “erguendo o cálice da bênção e invocando o nome santo do Senhor” (Sl 115,13).

 

(Para aprofundamento do tema, leia: Roteiros homiléticos da Semana Santa e Tempo Pascal Ano C – 2007, p.7-16 – PNE Queremos Ver Jesus).

Publicado em: O ASCENSOR (Boletin informativo da Diocese de Jaboticabal): ano 68, n. 1875, p.05, abril 2007.

Pelo Natal de Jesus,

celebremos a jubilosa esperança da Salvação!

Pe. José Adalberto Salvini

 

As celebrações do Natal sempre reacendem a jubilosa esperança da Salvação, prometida pelo Pai e realizada em Jesus Cristo. Estas celebrações levam os fiéis a se prostrarem na contemplação do Mistério da Encarnação do Verbo Eterno, o Filho de Deus, que por obra e poder do Espírito Santo, se fez Homem no ventre da Virgem Maria.

O nascimento de Jesus em Belém de Judá já realiza, de forma plena, o mistério da Salvação humana, cuja esperança foi alimentada desde Abraão até que se completou no mistério de sua Paixão, Morte e Ressurreição e se destina à plenitude no céu, quando Ele vier como Senhor e Juiz da história, pois "Aquele" que assumiu a nossa humanidade, nos faz participantes de sua divindade que será manifestada em todo o seu esplendor no dia final.

As celebrações do Natal fazem brotar um profundo sentimento de alegria e paz, pois este é um tempo em que se afloram as disposições de reconciliação entre as pessoas e destas com Deus, o empenho solidário em fazer acontecer um mundo novo, onde não haja necessitados, onde a justiça e a paz possam se abraçar.

Contemplando o Menino nascido na "Casa do Pão", naquela Noite Feliz e Santa, vislumbramos uma luz diferente que ilumina os olhos de nossa fé. Não é a luz de algum astro brilhante em meio às trevas do firmamento, mas a Verdadeira Luz, que procede do próprio Menino, Deus que se fez Humano. Esta luz invade os corações e o que pela fé brilha nas mentes precisa se manifestar em ações (Cf. Oração Coleta da Missa da Aurora do Natal).

O Divino e Eterno Pai nos criou por amor. Porém, o pecado nos fez morrer. Perdemos a graça exatamente porque nos desviamos da vontade do Pai e não correspondemos ao seu inefável amor. Mas, em sua benevolência Ele mandou ao mundo o seu Filho, para restabelecer a dignidade humana. O nascimento de Jesus dá início ao cumprimento da promessa salvífica. A partir de então já estamos reconciliados para vivermos uma vida nova e alcançarmos a imortalidade pela redenção oferecida na Cruz libertadora.

Contudo, diante do sublime mistério que celebramos no Natal, ainda nos inquieta tanto desamor e tantas vidas submersas na desgraça. É chocante saber que a vida de crianças é interrompida violentamente, muitas são assassinadas pelos próprios pais! Causa-nos horror saber que a violência, a exploração do trabalho infantil, o abuso sexual de menores e a prostituição infantil, crianças na guerra, a influência do narcotráfico, entre outros problemas gravíssimos, ceifam a vida de nossas crianças e ferem sua dignidade. O dom da vida é freqüentemente renegado e novos "Herodes" insistem em exterminar a vida de inocentes.

Diante desta realidade que ignora o Deus da Vida só nos resta clamar pela misericórdia do Senhor e nos comprometer de modo decisivo na luta pela defesa da vida, desde a sua concepção no ventre materno. Podemos, sim, assumir ações concretas a partir de uma educação que gere a "cultura da vida", cuidando de colocar em prática os direitos das crianças e dos adolescentes, gerando ações políticas que se coloquem efetivamente a favor do desenvolvimento e da dignidade humana em todas as circunstâncias onde imperam o poder das trevas e da exclusão, a fim de que resplandeça em cada aurora a autêntica luz do Natal.

Nas orações que proclamamos em nossas liturgias recordamos que "agora e em todos os tempos" o Cristo "vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade" (Prefácio do Advento I A). É preciso acolher este Cristo Real, que não é uma simples imagem de presépio, mas o Verdadeiro Ícone no qual Deus revela a humanidade de sua Divina Face, a sua "Imagem e Semelhança" visível em suas criaturas, pela graça batismal feitas filhas no Filho Unigênito.

Neste contexto, a Sagrada Família é o modelo a ser continuamente imitado. Mesmo entre provações e sofrimentos o casal de Nazaré permaneceu com abnegada fidelidade na parceria com Deus, correspondendo ao seu projeto e aceitando com amor a sua divina vontade. Neles a graça foi fecundamente acolhida e vivida. Tenhamos, pois, também nós, a prontidão do Justo José e da Virgem Mãe e seja nossa existência um constante Sim à vontade do Pai.

Assim como na noite jubilosa do nascimento do Salvador Deus revelou sua glória aos Pastores e, depois, aos Magos do Oriente, que simbolizam respectivamente o Povo Eleito e todas as Nações do Universo, hoje, nos é revelada a Boa Notícia de sua presença Salvadora no Mundo. Tal e qual os magos, somos convidados a percorrer um caminho diferente: o caminho da justiça e da liberdade, o caminho da verdade e da vida, o caminho da Cruz, pelo qual chegaremos ao céu e alcançaremos a paz definitiva.

De fato, precisamos ter coragem para romper com as arcaicas estruturas de morte e opressão, acolhendo na manjedoura de nosso coração o Filho Deus Encarnado, fazendo-nos seus discípulos missionários, percorrendo com Ele o caminho que vai para Jerusalém. Deste modo, caminhando na estrada com Jesus, iremos anunciando ao mundo sua presença Salvadora e proclamando a todos que sobre nós já brilha a sua luz!

Que a "Estrela-Guia" também nos conduza à presença de Jesus e a Ele possamos adorar e ofertar não apenas ouro, incenso e mirra, mas o dom total de nosso ser, feito hóstia-comunhão, nos dons eucarísticos que antecipam o penhor da glória futura, do mundo que há de vir.

Então, enfim, poderemos cantar jubilosos a alegria de nossa Salvação, pois "nasceu-nos hoje um menino, um Filho nos foi dado!" (Is 9,6).

 

 

ALGUÉM É O CENTRO DA FESTA:

JESUS, NOSSO SENHOR

 

Padre Osmar Augusto Bezutte, SDB[1]

 

O Natal é uma das festas mais importantes para a Igreja católica. Por isso, ele tem uma preparação, uma celebração e seu prolongamento. Conheça mais sobre o Advento e o sentido do Natal.

Natal. O momento mais esperado do ano. Famílias que se encontram. Troca de presentes. Mesa farta. Presépio. Luzes. Comércio enfeitado, publicidade... Um clima diferente nas famílias, nas pessoas... Música no ar: aquela harpa famosa, John Lennon, Simone, comer, beber, cear, trocar presentes, matar saudades, passar a noite curtindo e depois... Dormir até meio-dia. Que mais?

Quantos fazemos a festa, mas não nos lembramos do dono da festa! O que é o Natal?

Alguém é o centro da festa: Jesus, nosso Senhor. A luz que veio ao mundo, o Filho de Deus que se encarnou e se fez um de nós. É o nascimento do Menino-Deus!

A Igreja celebra duas grandes festas durante o Ano litúrgico: o Natal e a Páscoa. Esta última é a mais importante. E porque são importantes, essas festas têm uma preparação, a celebração e seu prolongamento.

O ADVENTO - é a preparação do Natal. Vem do latim: adventus, que quer dizer chegada, vinda. Festa não se improvisa, não é? Senão, paga-se mico! E a preparação contém em si certo ar de mistério para surpreender, coração e idéias a mil, confidências, ensaios, torcida para dar certo, compras, enfeites... Enfim, o Advento é mais, criando em nós uma espiritualidade com alguns apelos:

Primeiro, a expectativa vigilante e alegre: porque o que se espera, temos certeza que se realizará. Deus é fiel. Recordamos as duas vindas de Cristo: a segunda vinda (do início do Advento até o dia 16 de dezembro); e a primeira vinda (de 17 a 24 de dezembro).

O segundo apelo é o da esperança: temos esperança de que "Ele virá" trazendo um jeito diferente de ver o mundo, as pessoas, os acontecimentos. É uma esperança intensa e paciente da Igreja que busca a cidade futura e definitiva, esperando um dia o pleno advento do Senhor para o mundo inteiro. É cantar o refrão: "Vem vindo a libertação; ergam a cabeça, levantem do chão!"

Vem em seguida a conversão: é um tempo de mudança de vida. Não haverá alegria, esperança e festa sem retornar ao Senhor de todo o coração. É preciso "despertar do sono" (Rm 13). Os profetas Isaías e João Batista nos alertam para o compromisso de "endireitar os caminhos".

Por fim, a pobreza: no sentido bíblico, daquele que confia em Deus e apóia-se totalmente nele. Como Maria, a "serva (a escrava, a pobrezinha) do Senhor". Ela é o modelo dos pobres do Senhor, que esperam suas promessas, confiam nele e estão disponíveis, para a realização do seu plano.

Assim, como diz Ione Buyst, o "advento é a experiência de uma gravidez", olhando para Maria, grávida de Jesus. É não ver a hora de o Filho nascer e se manifestar ao mundo.

A CHEGADA DO NATAL - O Natal é a celebração do que o evangelista João nos relata: "A Palavra se fez homem e habitou entre nós" (1, 14). O Deus invisível torna-se vivível num corpo humano, num bebê frágil como qualquer ser humano. A palavra vem do latim: Natalis Solis Invicti, ou seja: "Nascimento do Sol invicto" e se refere à festa pagã da Roma antiga no dia 25 de dezembro ao deus sol. A Igreja cristianizou esta festa: Jesus é o verdadeiro sol, a luz do mundo, que vence as trevas do pecado.

Na criança indefesa, à luz da Páscoa, nossa fé reconhece o Filho de Deus, o Messias-Salvador, o Rei das Nações que recebe do Pai todo o poder para implantar o seu Reino. E Jesus nasce de novo a cada Natal, naqueles que aceitam sua mensagem do Reino e procuram viver o que Ele ensinou.

Sua celebração se prolonga por oito dias (Oitava) e ainda na Festa da Sagrada Família (Jesus veio "casar" a família humana e a família divina!), na Solenidade da Mãe de Deus (depois do Filho, lembramos a Mãe!), na Epifania do Senhor, (manifestação do Senhor ao mundo inteiro nos três magos) e no Batismo do Senhor (missão de Jesus ungido pelo Espírito, apontando também a nossa missão de batizados).

 

 

 

 

 

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

 

 

 

 

 


[1] Artigo publicado no Boletim Salesiano, edição de novembro/dezembro 2008, pág. 16-17.

AS SAUDAÇÕES DO APÓSTOLO PAULO

Uma luz para nossas saudações litúrgicas

 

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

 

Quando saudamos alguém, manifestamos-lhe carinho, admiração, estima e reconhecimento e, ao mesmo tempo, desejamos-lhe o melhor para a sua vida. Colocamo-nos como servidores de quem saudamos. É o que fazia Paulo em suas cartas dirigidas às comunidades e a pessoas amigas. O apóstolo sempre iniciava as cartas com uma saudação humilde e carinhosa, augurando o melhor para os seus destinatários.

Penso então nas saudações iniciais de nossas celebrações litúrgicas: Com que atitude espiritual se expressa o melhor para a assembléia reunida? Ou apenas se lê, formalmente, uma “fórmula” escrita no Missal (ou, quem sabe, num folheto)? É bom lembrar que, na Liturgia, saudar é uma forma de se relacionar ‘humanamente’ com a assembléia; e mais, é uma forma de celebrar o ‘mistério’ que nos re-úne num só corpo.

Então, com que atitude espiritual Paulo saúda?  Ele o faz numa atitude de servo: “servo de Jesus Cristo” (cf. Rm 1,1; Fl 1,1), “servo de Deus” (Tt 1,1). Isto é, como quem se dirige não em próprio nome, mas a serviço do Ressuscitado. Por isso, ele se põe também numa atitude humilde de simples “apóstolo”, de alguém que se sente chamado e enviado, “não da parte de homem nem por intermédio de homem” (cf. Gl 1,1), mas de Jesus Cristo, o Ressuscitado: “Apóstolo de Jesus Cristo por vontade de Deus” (Ef 1,1; cf. Rm 1,1; 1Cor 1,1; 2Cor 1,1; Cl 1,1; 1Tm 1,1; Tm 1,1; Tt 1,1), “escolhido para o Evangelho de Deus” (cf. Rm 1,1-4)...

Como se pode ver, a atitude de Paulo, que transparece ao saudar seus “ouvintes”, é de total obediência a Deus; como quem, na atitude de “servo”, ao saudar se deixa conduzir pela fala do Senhor. De tal maneira que, na sua saudação, podemos  experimentar o próprio Senhor ‘falando’. Por isso que a nossa Liturgia se serve precisamente das saudações paulinas para as saudações litúrgicas. E a atitude decorrente, a exemplo de Paulo, com certeza deverá ser esta: que, na ação de saudar a assembléia, quem saúda deixe a Liturgia falar.

Por isso que Paulo expressa carinho em suas saudações. De fato, em Cristo ele demonstra simpatia pelos destinatários de suas cartas, chamando-os de “amados e santos de Deus” (cf. Rm 1,7; 1Cor 1,2), “igreja de Deus e irmãos..., santificados em Cristo Jesus, com todos os que invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (cf. 1Cor 1,2; 2Cor 1,1), “santos e fiéis em Cristo Jesus” (Ef 1,1; cf. Fl 1,1), “amado filho” Timóteo (2Tm 1,2), “verdadeiro filho, pela fé, Tito” (Tt 1,4), amigo e colaborador Filêmon, irmã Ápia, companheiro de luta Arquipo com a igreja que se reúne em sua casa (cf. Fm 1,1-2).

E o quê de melhor Paulo deseja em suas saudações iniciais aos destinatários? Tudo o que vem do Pai, do Senhor ressuscitado e do Espírito Santo, e que ele resume nestas duas palavras: a graça e a paz. Graça, certamente, como presença gratuita da salvação de Deus; paz, com certeza, como vida em abundância, decorrente da experiência de comunhão fraterna em Cristo e no Espírito: “Graça e paz estejam convosco” (cf. Rm 1,7; 1Cor 1,3; 2Cor 1,2; Gl 1,3; Ef 1,2; 6,23-24; Fl 1,2; Cl 1,2; 1Ts 1,1; 2Ts 1,2; 1Tm 1,2; 2Tm 1,2; Tt 1,4; FM 1,3). Também a “misericórdia” (cf. 2Tm 1,2). E, no interior de três cartas, o apóstolo ainda amplia: “Que o Senhor dirija os vossos corações para o amor de Deus e a paciência de Cristo” (cf. 2Ts 3,5); “que o Deus da esperança vos encha de completa alegria e paz na fé, para que abundeis em esperança pela força do Espírito Santo” (Rm 15,13); “paz aos irmãos e caridade com fé da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo. A graça esteja com todos os que amam Nosso Senhor Jesus Cristo com amor eterno” (Ef 6,23-24).

Agora, veja que coisa interessante: Tudo o que Paulo deseja em suas saudações às comunidades, encontra-se hoje de alguma maneira resumido na fórmula litúrgica de saudação inicial da missa: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco”. Ou ainda: “A graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, nosso Senhor, estejam convosco”. As demais fórmulas de saudação inicial são elaboradas a partir das saudações paulinas de 2Ts 3,5,  Rm 15,13, Ef 6,23, e a saudação petrina de 1Pd 1,1-2.

As fórmulas estão aí, riquíssimas de conteúdo teológico-litúrgico. E temos agora um desafio pela frente: proclamar a saudação inicial, na Liturgia, com a atitude espiritual de servos do Ressuscitado e o carinho de irmãos de todos, com que Paulo saudava os irmãos. Na saudação, bem proclamada, a assembléia litúrgica tem o direito e dever de experimentar a presença do Senhor e vivenciar seu próprio mistério: Igreja reunida no amor de Cristo (cf. Instrução Geral sobre o Missal Romano, n. 50).

Por isso, inclusive, é mais que conveniente evitar substituir estas fórmulas de saudação por outras mais pobres, apenas de momento (“bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” etc.).  Ou,  pior ainda, fazer longos comentários e “homilias” antes do sinal da cruz e da preciosa, teológica, litúrgica e oportuna saudação.

 

 


Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

 

1.         Ao saudar alguém, o que vivenciamos?

2.         O que experimentamos quando recebemos a saudação carinhosa de alguém?

3.         O que Paulo vivenciava quando saudava as comunidades e pessoas amigas?

4.         No início da Liturgia, quem preside saúda a assembléia servindo-se das palavras do apóstolo Paulo. Você consegue experimentar a presença do Senhor e o mistério da Igreja que somos, quando ouve a saudação e a ela responde? Se sim, por quê? Se não, por quê? O está faltando para melhorar?

5.         Como o(a) presidente da celebração deve proclamar a saudação inicial?

 

 

A segunda vinda do Senhor nas cartas de São Paulo

 

Pe. Gregório Lutz, CSSp

 

No advento comemoramos que Jesus veio “revestido da nossa fragilidade, ... a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação” e que “revestido de sua glória ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que... vigilantes esperamos” (1º prefácio do advento). De fato, no início do advento continuamos olhando, como fizemos em todo o mês de novembro, desde a festa de todos os santos até a festa de Cristo Rei, para o fim da vida terrestre e deste mundo e, além disso, para a vida do mundo que há de vir. Somente quando entramos mais para dentro do advento, o nosso olhar se dirige para a memória da primeira vinda do Senhor.

Já que estamos no ano Paulino, parece conveniente lembrar como São Paulo nos apresenta sua fé na vinda do Senhor na glória.

Muitas vezes o apóstolo São Paulo expressa em suas cartas que está esperando a segunda vinda do Senhor. Sobretudo na 1ª carta aos Tessalonicenses ele fala com freqüência desta vinda (por exemplo, 1 Ts 2, 19; 3.13; 5, 23).

Paulo partilha esta esperança com os fiéis de suas comunidades. Isso se mostra em fórmulas tradicionais, que provavelmente já na liturgia da Igreja Apostólica eram usadas, particularmente a aclamação “Maranatha” (1Cor 16, 22). No fim do livro do apocalipse encontramos esta fórmula interpretada: “Aquele que atesta estas coisas diz: ‘Sim, venho muito em breve.’ Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22, 20).

Esta vinda na glória deverá acontecer no “dia do Senhor” ou “dia de Cristo”. Dia do “Senhor” tinha já no Antigo Testamento sentido escatológico, pois significava o dia do julgamento final. Paulo atribui este julgamento a Jesus Cristo (2Cor 5, 10 e Rm 2, 5-11).

A vida do Senhor para o julgamento deve seguir a ressurreição dos mortos e a comunhão definitiva com Cristo (1 Ts 4, 3-17).

Como na aclamação do final do apocalipse, que acabamos de citar, percebe-se várias vezes nas cartas de São Paulo sua convicção de que o Senhor deveria voltar em breve (p. ex. 1 Ts 5, 3s; 1 Cor 7, 29; Fl 4, 5; Rm 13, 11s).

No entanto, Paulo insiste que a esperança da vinda do Senhor na glória exige que no presente já se viva “em Cristo” (2 Cor 5, 17) e futuramente “com ele” (1 Ts 4, 14.17; 5, 10; Fl 1, 23). Uma fundamentação desta exigência Paulo dá na 2ª carta aos Coríntios quando explica que Cristo “morreu por todos a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles”, e conclui: “Eis agora o tempo favorável por excelência. Eis agora o dia da salvação (2 Cor 5, 14 – 6, 2).

 

 


Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

Nas cartas de São Paulo:

1.         Que aspectos relevantes da 2ª vinda do Senhor são destacados?

2.         Que atitude nossa se exige enquanto esperamos esta vinda?

3.         O que podemos fazer concretamente para preparar esta vinda do Senhor?

A COROA DO ADVENTO

                                  

Ir. Veronice Fernandes, pddm

 

O que é a coroa do advento?

Entre os símbolos do ciclo do natal, temos a coroa do advento que contém uma linguagem de silêncio, mas que fala forte através do círculo, da luz, das cores, dos gestos correspondentes... É feita de folhas verdes e nela se colocam quatro velas.

Qual a sua origem?

Surgiu na Alemanha, no século dezenove, mais exatamente nas regiões evangélicas, situadas ao norte. Os colonos para comemorarem a chegada do natal, a noite mais fria do ano, acendiam fogueiras e sentavam-se ao redor. Mais tarde, não podendo acendê-las dentro de casa, tiveram a idéia de tecer uma coroa de ramos de abeto (uma espécie de pinheiro), enfeitando-a com flores e velas.

No inverno rigoroso dos países frios, todas as árvores perdem suas folhas, somente os pinheiros resistem, sendo desta forma, um sinal de que, a natureza não morreu totalmente.

No início do século vinte, os católicos adotaram o costume de colocar a coroa nas suas igrejas e casas. No Brasil, o uso certamente provém dos missionários que vieram da Alemanha, ou de brasileiros que tendo conhecido o uso da coroa na Europa, a introduziram nas comunidades

 

Por que tem uma forma circular?

Sem começo e sem fim. A circularidade está ligada a perfeição. O redondo cria harmonia, junta, une. Lembra ainda para nós, que somos integrantes de um mundo circular, onde o processo do universo e da vida é cíclico: o círculo do ano, do tempo, o ir e vir da história, sempre marcado pela presença daquele que é a Luz do mundo.

 

Por que 4 velas?

Nos países do norte da Europa, durante o inverno, as noites são mais longas que os dias e a luz do sol brilha pouquíssimo, quando não fica totalmente escondido pelas nuvens. Por isso, lâmpadas, velas são indispensáveis e muito apreciadas. Mesmo para nós que somos cumulados com a luz do sol, a luz da vela tem muito significado.

No advento, a cada domingo, acende-se uma vela da coroa. De uma a uma, a luz vai aumentando, até chegar na grande festa da Luz que proclama Jesus Cristo como Salvador, Sol do nosso Deus que nos visita, que arma sua tenda entre nós (Cf. Jo 1,1-14).

Quanto a cor das velas, normalmente é usado a vermelha que em quase todas as partes do mundo, tem o significado do amor.

No Brasil, somos marcados profundamente pelas culturas, indígena e afro, onde o brilho das cores, da festa, da dança, da harmonia com o universo, está presente de uma maneira esplendorosa e reveste as celebrações. Desta forma temos o costume de utilizar na coroa, velas coloridas, uma de cada cor.

 

Por que a cor verde?

É sinal de vida. Nem tudo está morto, há esperança. Mesmo nos países tropicais, quando tudo está seco, sedento, com a chuva a vida brota, tudo fica verde e traz a esperança dos frutos e  anuncia a vida.

 

Vem vindo, a libertação...

O advento é marcado pela atitude de espera vigilante a fim de captar todos os sinais que Deus vai nos revelando.

Desde o primeiro domingo, somos interpelados (as)  como Isaías, João Batista e Maria, a fortalecer a esperança, assumir a história de uma maneira diferente, lutar para por fim a uma cultura de morte e proclamar com atos e palavras que a vida é mais forte.  De domingo a domingo vai crescendo em nós, na comunidade, no universo inteiro, a certeza de que a luz brilha nas trevas e que Deus nos ama a tal ponto que se faz gente como nós.  E assim, o dom vai crescendo em nós e nos tornando capazes de ir ao encontro das outras pessoas, de esparramar no mundo a solidariedade, a esperança, a justiça, a paz...

Com certeza, utilizando a coroa nas comunidades, com toda a dimensão simbólica que ela contém, será um sinal que nos ajudará a “enxergar” e a experienciar mais profundamente todo o sentido da espera do Salvador.

 

Como fazer o acendimento da coroa?
É preciso preparar antecipadamente a coroa no local da celebração.  No material utilizado, usar o natural. É preciso prevalecer a verdade dos sinais.   Também, na decoração da coroa, não usar brilho, pois procedendo desta maneira, estaríamos antecipando a festa da plena luz que é o natal e deixando de experimentar a feliz espera, da manifestação do Senhor que acontece nas festas do natal. Sendo o altar símbolo do Cristo é recomendável não colocar a coroa sobre o mesmo.

 

Proposta de acendimento da coroa de advento para os quatro domingos:

Normalmente as velas da coroa são acesas no início da celebração.

Uma pessoa entra com a vela acesa (pode ser uma mulher grávida), enquanto isto a comunidade canta:

Vem vindo a libertação, ergam a cabeça, levantem do chão! (ou outro canto apropriado)

Levantando a vela e aproximando-se da coroa, reza-se:

Bendito sejas, Deus bondoso, pela luz do Cristo, sol de nossas vidas, a quem esperamos com toda ternura do coração.

Em seguida, coloca-se a vela na coroa, podendo repetir o refrão acima.

 

 

Perguntas para reflexão pessoal e em grupos:

 

1.         O que nos chama a atenção nesse artigo?

2.         Qual o sentido do advento?

3.         Como vocês costumam fazer o acendimento da coroa do advento?

4.         Como fazer o acendimento para melhor expressar o sentido do advento?

 

Coroa do Advento

Um olhar teológico-litúrgico e roteiro celebrativo para o acendimento

Pe. José Adalberto Salvini.

 

1. Olhando para a história e o sentido teológico-litúrgico da Coroa do Advento

A origem da Coroa do Advento remonta o final do séc. XIX, na Alemanha, entre os cristãos de confissão evangélica e foi, aos poucos, sendo assumida também nas comunidades católicas daquele país e se espalhou para outras regiões.

No Brasil a coroa do advento chegou já nos inícios do séc. XX, com a vinda de imigrantes e missionários daquelas regiões da Europa.

Pouco a pouco a coroa do advento foi ganhando sentido e interpretação à luz da espiritualidade litúrgica do Advento, considerado tempo propício de espera e vigilância dos cristãos para a vinda gloriosa do Senhor.

Neste sentido, podemos buscar na antiga prática judaica do acendimento da vela no Shabat uma salutar interpretação. O acendimento das velas é símbolo não só da espera, mas, sobretudo, da acolhida do sábado. Conforme a tradição judaica, é a mulher quem acende as velas; pela índole de sua missão no lar ela é a responsável por criar o ambiente sabático, pois, como dizem os sábios de Israel, “não há bem-estar sem a luz”. Este acendimento representa também a expiação pelo pecado de Eva, que ao comer do fruto da árvore proibida “apagou a luz do mundo”. Acender as velas significa romper com as trevas do mundo, romper com o pecado. Por isso, a primeira vela se acende para recordar (zaror) o sábado e santificá-lo; a segunda vela se acende para cuidar, vigiar (shamor) o dia do sábado para santificá-lo.

Entendemos que se para Israel esta luz haverá de se manifestar em sua plenitude com a chegada do Messias, significada no advento do sábado[1], para nós, cristãos, esta luz já se manifestou na Encarnação do Verbo eterno de Deus, nascido do seio da Mulher obediente, a Virgem Maria: “E o Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo homem” (Jo 1,9); manifestou-se de forma particular com a ressurreição de Jesus Cristo, como afirma a fórmula litúrgica: “A luz de Cristo que ressuscita resplandecente dissipe as trevas de nosso coração e nossa mente”[2]; e há de manifestar-se em sua plenitude por ocasião da vinda gloriosa do Senhor: “A cidade não precisará do sol ou da lua para a iluminarem, pois a glória de Deus a ilumina, sua lâmpada é o Cordeiro. As nações caminharão na sua luz” (Ap 21,23-24a.). Neste dia estaremos participando da “festa da eterna luz”.[3]

            Os elementos que compõem a coroa do advento também nos ajudam a fazer uma leitura muito interessante dos significados. Ela é confeccionada em forma circular e ornada com cipreste verde e velas vermelhas (conforme a origem alemã) ou velas coloridas (pela influência afro-indiginista da cultura dos povos latino-americanos – sendo cada vela de uma cor ou, ainda, três velas roxas e uma vela rósea).



[1] Mui significativo é o rito da Kabalat Shabat, quando quase ao final do poema a assembléia se volta para a entrada da sinagoga, esperando a chegada da noiva, ou seja, do Sábado, e se contempla o poema que diz: “Vem em paz, com alegria e regozijo... vem noiva, Shabat a rainha...”.

[2] Cf. Missal Romano. Vigília Pascal, n. 12, p. 272. A eucologia do tempo do natal também traz rico elenco de preces que apontam para este mesmo sentido. Cf., por exemplo, a oração coleta da noite do natal: “... fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz”; a oração coleta do quinto dia da oitava do natal: “... dissipastes as trevas do mundo com a vinda da vossa luz”;  a antífona de entrada “b” da solenidade da Santa Mãe de Deus: “Hoje surgiu uma luz para o mundo...” (Is 9,2); a oração coleta do segundo domingo do natal: “... manifestai-vos a todos os povos no fulgor da vossa luz”; oração pós-comunhão da solenidade da epifania do Senhor: “... guiai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste...”; o prefácio do natal do Senhor I: “... nova luz da vossa glória brilhou para nós”. Estes são alguns dos muitos exemplos eucológicos que poderíamos citar.

[3] Ibidem, n. 9, p. 271.

[1] Mui significativo é o rito da Kabalat Shabat, quando quase ao final do poema a assembléia se volta para a entrada da sinagoga, esperando a chegada da noiva, ou seja, do Sábado, e se contempla o poema que diz: “Vem em paz, com alegria e regozijo... vem noiva, Shabat a rainha...”.

[1] Cf. Missal Romano. Vigília Pascal, n. 12, p. 272. A eucologia do tempo do natal também traz rico elenco de preces que apontam para este mesmo sentido. Cf., por exemplo, a oração coleta da noite do natal: “... fizestes resplandecer esta noite santa com a claridade da verdadeira luz”; a oração coleta do quinto dia da oitava do natal: “... dissipastes as trevas do mundo com a vinda da vossa luz”;  a antífona de entrada “b” da solenidade da Santa Mãe de Deus: “Hoje surgiu uma luz para o mundo...” (Is 9,2); a oração coleta do segundo domingo do natal: “... manifestai-vos a todos os povos no fulgor da vossa luz”; oração pós-comunhão da solenidade da epifania do Senhor: “... guiai-nos sempre e por toda parte com a vossa luz celeste...”; o prefácio do natal do Senhor I: “... nova luz da vossa glória brilhou para nós”. Estes são alguns dos muitos exemplos eucológicos que poderíamos citar.

[1] Ibidem, n. 9, p. 271.

Coroa do Advento parte 2

O círculo, feito de ramos verdes – ciprestes, simboliza a perfeição divina, pois o círculo não tem início, nem fim. De fato, Cristo, alfa e ômega, é o princípio e fim de todas as coisas[1]. 

Os ramos verdes simbolizam a resistência da vida que persiste em se manifestar, mesmo diante das adversidades deste mundo presente. Tanto na Europa, quando no inverno os pinheiros são as únicas árvores que permanecem com suas folhas vicejantes, quanto no Brasil, quando após a seca do inverno, chegam as primeiras chuvas primaveris e a natureza ressurge com tenros rebentos que brotam nos troncos, o verde natural fala da vida nova que foi trazida com o nascimento do Salvador. Torna-se sinal da vinda do Messias que veio para fazer novas todas as coisas, e para que todos tenham a vida em plenitude.

As velas que acompanham os quatro domingos litúrgicos e são colocadas sobre o círculo de ramos verdes simbolizam os pontos cardeais, sinal de que todo o universo vai sendo inundado com a luz do Messias que vem, ele que é “luz de todas as nações” (Lc 1,32)[2]. Expressa igualmente a nossa progressiva prontidão em acolher o Salvador que vem, tendo em nosso agir a dinamicidade de atitudes que tornem visível a manifestação do Reino já presente em nosso meio e, deste modo, antecipem a manifestação plena do “novo céu e a nova terra, onde habitará a justiça” (2 Pd 3,13).

O vermelho das velas simboliza o imenso amor com que Cristo se ofereceu pela Salvação da humanidade e, de forma livre e generosa, banhou o mundo com o seu Sangue derramado na Cruz. Pode significar igualmente a realeza daquele que sendo o Messias, Rei e Sacerdote eterno”, é um descente da casa de Davi.[3] Caso as velas sejam coloridas este sinal poderá ser expresso por uma fita de tecido vermelho que entrelace os ramos verdes e as velas. Neste caso, além de simbolizar a diversidade cultural dos povos e nações, expressará a alegria com que celebramos a revelação histórica do “mistério mantido em sigilo desde sempre (...) e levado ao conhecimento de todas as nações” (Rm 16,25b.26b), bem como a alegre expectativa com que vigilantes mantemos acesa a chama do espírito enquanto aguardamos a manifestação definitiva do Senhor Jesus Cristo que virá em glória (Cf. 1 Ts 5,19.23).

A coroa do advento não deve ter ornamentos com brilhos, mas tão somente a simplicidade opaca dos elementos que a compõem e o brilho da luz com que vigilantes aguardamos a vinda de Jesus. Adornar a coroa do advento com outros elementos seria o mesmo que antecipar o brilho da luz definitiva que só deverá ser expressa na noite santa do natal.

A preparação da coroa do advento e a arrumação da casa para a chegada do Messias sugere algo maior que é a arrumação do templo espiritual onde Deus quer habitar, ou seja, do próprio coração da pessoa humana. Hoje, o Cristo se manifesta presente em cada pessoa humana e nela quer ser acolhido. Sua presença é libertadora provoca a ruptura com as trevas das injustiças e as diversas formas de exclusões que ofuscam a manifestação da luz do Reino da justiça e do amor inaugurado por Jesus. Deste modo, a verdadeira preparação para a vinda do Senhor se faz à medida que cada cristão deixa brilhar a chama da fé batismal, comprometendo-se com a missão que lhe foi confiada na unção com o Divino Espírito. Será mantendo acesa esta chama batismal que chegaremos “com segurança ao reino da luz e da vida” (Ritual da Unção dos Enfermos, n. 114.2).



[1] Ibid., n. 10, p.272.

[2] Antífona de entrada da quarta-feira para os dias de semana até 16 de dezembro: “O Senhor vai chegar, não tardará: há de iluminar o que as trevas ocultam e se manifestará a todos os povos” (Hbc 2,3: 1Cor 4,5). Cf. Missal Romano, p. 136.

[3] Várias antífonas de entrada expressam este aspecto da realeza de Jesus Cristo: Cf. dias 18, 20, 22 de dezembro; também a missa da aurora no dia de natal.

 

 

 

[1] Ibid., n. 10, p.272.

[1] Antífona de entrada da quarta-feira para os dias de semana até 16 de dezembro: “O Senhor vai chegar, não tardará: há de iluminar o que as trevas ocultam e se manifestará a todos os povos” (Hbc 2,3: 1Cor 4,5). Cf. Missal Romano, p. 136.

[1] Várias antífonas de entrada expressam este aspecto da realeza de Jesus Cristo: Cf. dias 18, 20, 22 de dezembro; também a missa da aurora no dia de natal.

2. Dicas para o acendimento das velas da coroa do advento durante a celebração

 

            Aqui propomos um roteiro básico para o acendimento das velas da coroa do advento, sendo uma estrutura única e simples, com duas opções de textos e melodias.

 

Primeiro passo: Após a saudação inicial, a breve recordação da vida e o ato penitencial, uma mulher grávida (eventualmente acompanhada de seu marido e filhos já nascidos), tendo como ponto de partida a porta principal da igreja, caminha em direção à da coroa do advento levando uma vela acesa. Enquanto se aproximam a comunidade canta o refrão meditativo: Vem vindo a libertação!Ergam a cabeça, levantem do chão![1]

           

Segundo passo: Chegando junto ao presbitério e estando perto da coroa do advento, ao ser concluído o canto do refrão, a mulher levanta a vela e reza-se a seguinte oração, que é a mesma para todos os domingos: “Bendito sejas, Deus bondoso, pela luz de Cristo, sol de nossas vidas, a quem esperamos com toda ternura do coração”. Outra opção será que o esposo faça a oração e a mulher mantenha a vela levantada.

 

Terceiro passo: Em seguida, se acende a respectiva vela da coroa do advento, enquanto o grupo de cantos entoa a estrofe e refrão, correspondete para cada domingo, como segue abaixo nas duas propostas abaixo.



[1] Cf. Ofício Divino das comunidades, suplemento 1 – refrões meditativos, p. 23, n. 42.

 

 

Primeira proposta / Coroa do Advento

 

Uma opção para o canto do acendimento poderá ser o texto musicado pelo Maestro Américo Donizete Batista. (Cf. Apostila com partituras e CD – caseiro, fornecido no Encontro Diocesano de Formação Litúrgico Musical, realizado na Diocese de Jaboticabal, em 2006).

 

1º Domingo:

 

  1. A primeira vela ascendemos

Onde havia escuridão se encontra a luz

Vigilantes, Senhor, aguardaremos

Este é o tempo do advento de Jesus.

 

Refrão: Vinde, ó Mestre, esperamos pelo dia

quando em nosso meio vai estar

Com Maria, a Mãe Santa preparamos,

a morada no coração, seu lar.

 

2º Domingo:

 

  1. Outra vela nós ascenderemos,

A coroa recebe nova luz,

E por nossa vontade, Pai, queremos,

Consolar o irmão aflito, meu Jesus.

 

Refrão: Vinde, ó Mestre, esperamos pelo dia

quando em nosso meio vai estar

Com Maria, a mãe Santa preparamos,

a morada no coração, seu lar.

 

3º Domingo:

 

  1. A terceira vela que ascendemos

Ao cantarmos: “Alegrai-vos no Senhor”,

Transbordando alegres pratiquemos

A justiça, o perdão e o amor!

 

Refrão: Vinde, ó Mestre, esperamos pelo dia

quando em nosso meio vai estar

Com Maria, a mãe Santa preparamos,

a morada no coração, seu lar.

 

4º Domingo:

                                                                                                      

  1. Hoje é a quarta vela que ilumina

Da coroa a última a brilhar

Com a chegada de Cristo, o Messias,

Nobre irmão, em nós o seu Reino implantar.

 

Refrão: Vinde, ó Mestre, esperamos pelo dia

quando em nosso meio vai estar

Com Maria, a mãe Santa preparamos,

a morada no coração, seu lar.

 

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